quinta-feira, 24 de julho de 2014

Ode à Masculinidade

Nunca gostei de paneleirices. Gosto de ser homem. Gosto de estremecer o estuque com peidos à homem. Gosto de beber cerveja gelada e de mandar arroto. Gosto de dizer «com licença», não para desculpar o arroto. Um «com licença» que podia ser «abram alas» e o arroto em direcção à vertigem dos ecos. Gosto de andar com barba. Barba desgrenhada, desmazelada, uma garunfa de respeito. Gosto de ter pêlos na venta, e no peito, e em todos os centímetros quadrados da minha pele. Gosto, particularmente, de ter pés de chumbo para dançar. Gosto de ter pés de bailarina para o futebol. Uma miniatura de Maradona nascido com pé destro: só Diego pode ser perfeito. Gosto de gostar de futebol. Gosto de mandar caralhadas ao árbitro e à progenitora do árbitro. No final do jogo peço desculpas à progenitora do árbitro. No final do jogo mando outras tantas caralhadas ao árbitro. Gosto de tirar macacos das fossas nasais. Gosto de arredondá-los com o polegar e o indicador e fazer pontaria às coisas. Gosto de mijar em pé. Gosto, depois de uma noitada, com bexiga arredondada de cerveja, mijar às árvores, mijar aos parquímetros, mijar às caixas de multibanco. Gosto de olhar para rabos-de-saia. Gosto de suspirar depois de as contemplar. Contudo, se gosto de rabos-de-saia não é por gostar de ser homem. Haverão outros homens que não apreciam rabos-de-saia. Apreciarão outras tantas coisas e nunca deixarão de ser homens por isso. Mas ainda assim gosto de gostar de rabos-de-saia. Contemplo, distraído, sem noção da indiscrição, respeito, inocência, encolher os ombros, assobiar um quase piropo, suspirar e piscar o olho. Gosto de filmes sem história de amor. Gosto de livros sem história de amor. Gostos de narrativas violentas, secas e cínicas. Gosto de berlindes, matraquilhos e bilhar. Gosto de calduços, pontapés e socos. Gosto de andar à bulha. Gosto de tascas. Gosto de tascas com espinhas e casca de tremoço no chão. Gosto de comer alarvemente. Gosto de encher a pança e palitar os dentes com a unha. Gosto de mandar gargalhadas, e não ter que tapar a boca e contentar-me com risadinhas envergonhadas. Gosto de dizer «merda» e não ter que me preocupar com a falta de respeito. Gosto de rabos-de-saia. Gosto de repetir-me com os rabos-de-saia. Tenho gosto em escrever «rabos-de-saia». Escrevo «rabos-de-saia» e imagino-os logo. Suspiro. Gosto de dormir só de roupa interior. Gosto de acordar e coçar os testículos, a barriga, a barba e a testa. Gosto de tomar um duche só com sabão. Sem sabonetes, cremes e loções. Gosto de me ver ao espelho e espremer a borbulha. Gosto de oferecer a minha mais pura franqueza. Gosto de abraçar um amigo e de afirmar, concludentemente, que gosto dele. Gosto de mandar um gajo à merda se não gostar dele. Gosto desta simplicidade infantil no trato social. Gosto do aperto de mão. Beijinhos é para se dar à mãe e à namorada. Gosto mesmo de rabos-de-saia. Pernil longo, bronzeado, vestido de verão. Suspiro. Gosto deste modo de pensar e sentir a vida. É indescritível. É uma visão sem ornatos e efeitos. Exceptuando quando se trata de rabos-de-saia. Aí somos poetas, líricos e românticos. Rococó de contemplação. O que não gosto mesmo é a confusão que se faz entre a apreciação da masculinidade e o machismo. Gostar de ser homem não me faz ser machista. Afirmo, sem dúvidas, que ser-se machista é não gostar de ser homem. Ser-se machista é próprio das bestas. Ser-se machista é ser um filho da puta reles. Gostar de ser homem para quem é homem, e gostar de ser mulher para quem é mulher, é um salvo-conduto da humanidade. E como sou homem, sustenho o que tenho dito: gosto de ser homem. Nunca gostei de paneleirices.

1 comentário:

Rogerio G. V. Pereira disse...

Quase me convenceste de que gostas da vida,
ela também tem rabo
e é muito feminina...

(embora haja vidas que são "tias")