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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Quarta Dimensão!

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Isto às vezes é tremendo porque a gente quer exprimir sentimentos em relação a pessoas e as palavras são gastas e poucas. E depois aquilo que a gente sente é tão mais forte que as palavras...
António Lobo Antunes
É por isto e muito mais que há quem seja «migrante» de amor e ódio do que virá.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Euro e União Europeia - Pandemia Bubónica

No próximo domingo há eleições para o parlamento europeu. O enredo é difuso. É assim a realidade, cheia de contradições. Acontecimento enredado por ideias e imagens épicas e fabulosas que é na verdade outra coisa. Falam em «Europa» quando é apenas «União Europeia»: a Europa existia antes da UE e continuará a existir depois desta. Falam em «eleições europeias» quando são apenas para o «Parlamento Europeu» [link]. As eleições ajudam a dar uma aparência de democracia, mas a aparência não coincide com a realidade concreta. O Parlamento Europeu tem poderes muito limitados. Aqueles que mandam na UE não são eleitos. O épico não é fabuloso, é angustiante. A ilusão e ignorância perante estes assuntos permite-nos poupar nos ansiolíticos e apreciar a grandiosidade sinfónica do Hino da Alegria. Não o tenho ouvido ultimamente!

É épico, é sim. É enorme, o «monstro europeu». Sensação de esmagamento. Somos demasiado pequenos. Insignificantes. Que fazer? Tamanho monstro só pode ser combatido com um movimento de massas - maldita consciência! Individualmente, temos uma infinitésima importância na mudança. Votar é importante, mas é infinitésimalmente útil. É-o mesmo escolhendo colocar a cruz no Partido da classe operária - a classe progressista - e já em si um grande movimento de massas. O enredo é contraditório. É útil e inútil. É crucial e ao mesmo tempo infinitesimal, isto é, aproximadamente igual a inútil.

Em A Peste, de Albert Camus, a desesperança tomou contra da cidade de Oran, uma tragédia de contornos difusos e inicialmente ignorados pela maioria população era na realidade bastante concreta, era a Peste. Os habitantes morriam pelo meio das ruas ou agonizavam em suas casas. Ela parecia imparável. No entanto, apesar da ausência de esperança, houve quem tivesse organizado equipas de saneamento, tratado os doentes, dado a vida por muitos que se limitavam a olhar, ignorando a sua própria utilidade infinitesimal, cobardes perante o épico desenvolvimento da tragédia.

Fascina-me este estranho fenómeno. Mesmo quando está claramente tudo perdido, e a tragédia é imbatível, há alguém que num insensato altruísmo se maça para fazer algo de útil. Infinitesimalmente útil. E, por fim, demonstram na prática que a tragédia só era inevitável na aparência, na voz e pensamento da maioria das pessoas. Foi o que fizeram os povos da União Soviética enfrentando o maior exército da História. Foi o que fizeram os comunistas e outros democratas na década de 60 em Portugal: quantos acreditariam que poucos anos depois o regime fascista cairia perante uma revolução democrática e nacional rumando, embora temporariamente, para o socialismo?

Quantos de nós acreditam ser possível que as amarras do Euro e da União Europeia possam estar prestes a cair? No entanto, há quem incorpore já equipas de saneamento. Tal como o exército nazi e o regime fascista português, foi uma estranha soma de acções individuais infinitésimais (mas organizadas) que remeteram na cidade de Oran a Peste para o passado.

Mas nem sempre as histórias acabam bem.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Acabar com a Peste

A Peste de Camus [1]
Acabei A Peste. Levei mais tempo que o suposto. Mas afinal o que era suposto? Levei mais tempo que o normal. Ando exausto. Soube hoje que ando anémico. Tenho dias em que os olhos pulsam. São olhos que querem fugir das concavidades. Soube que é da tensão alta. Abro um livro, leio, perco a concentração, as letras fogem-me, fecho um livro. 
Li A Peste em avanços e recuos. 
Quando leio, trago comigo um pequeno bloco e uma caneta. Anotam-se páginas e parágrafos, título do livro. Guardo em papelinhos os momentos de extravasamento. A leitura extravasa-me. Francesinhas, imperiais e Benfica. Extravasam-me. Miúdas em biquíni derramam-me. Morenas, loiras, ruivas. Derramam-me.
Escrevi num papelinho:
 Earl Sweatshirt
 A Peste - pág 220: fim do primeiro parágrafo

Earl Sweatshirt [2] é intruso. Pertence ao papelinho, mas não devia. Página duzentos e vinte:
«Tudo o que o homem podia ganhar no jogo da peste e da vida era o conhecimento e a memória»
Há uns anos, numa reunião da JCP, vociferavam disparates. Disputas constantes. Tremenda desilusão. Abandonei o Vitória. Não sabia como dar corpo à luta. Ainda hoje não sei como fazê-lo. Dantes preocupava-me, hoje não: um dia ignifico-me no caminho da luta objectiva. É uma certeza. Farei a diferença? Não interessa. O mais importante é a memória e o conhecimento. Percebi isto recentemente. É por isso que não vivo preocupado. Debelarei doenças e pestes. Acabarei o meu curso superior. Suportarei o peso da minha emancipação como indivíduo. Derramar-me-ei com morenas, loiras e ruivas. Farei de mim parte da enorme engrenagem que tece a luta e a história dos homens.
Tudo por etapas.
Uma a uma.
Amanhã haverá outra: acabar com a peste. 

[1] Imagem retirada daqui
[2] Wikipedia e Youtube

domingo, 8 de dezembro de 2013

A Morte Serena

«Arrancado a essa longa conversa interior que mantinha com uma sombra, era então lançado, sem transição, para o mais espesso silêncio da terra. Não tivera tempo para nada.» (A Peste de Albert Camus, página 64)

Ao ler a anterior frase, e sem querer alimentar pesares mórbidos, lembrei-me da morte do meu avô.
Antes de mais, é conveniente relembrar que a minha geração, nascida na década de oitenta, tem uma relação apartada da morte. Não vive a guerra. Não vive a peste. Vive a televisão. Não vive a morte objectiva e real. Talvez haja uma excepção: o velório. Dessa morte, nunca experimentei. A morte de hoje é a morte dos ritos funerários. Obviamente que escrevo sobre um cenário generalizado: a morte é vasta e diária. 
Em toda a minha vida, vi três mortos. Um atropelado. Um cuspido pelo vidro do automóvel. O último foi o meu avô. Sobre este último, houve mais que o morto: testemunhei a morte em si. Recentemente internado no hospital, com pneumonia muito avançada, só fui a tempo para me despedir dele. Este meu avô cumprimentava-me sempre com um beijo na testa. Na despedida, ainda ele vivia, a posição inverteu-se: dei-lhe um beijo na testa. O meu avô vivia na sua barriga, que numa respiração pesada se expandia para depois se comprimir. Não havia mais do que isso. Dei-lhe um beijo na testa. Em seguida comprimiu-se infinitamente, até a enfermeira confirmar o que eu já tinha percebido: o meu avô morreu. Da minha parte, nem choque nem lágrima. Testemunhei a morte e esta pareceu-me serena. Houve uma permuta de estados: a tal conversa interior com uma sombra para o silêncio da terra. Nem choque nem lágrima, mas o reconhecimento agradecido e a despedida que ele mais ansiava. Noutros tempos, o meu avô confessou-me, com os olhos marejados, que se tinha despedido de um camarada. De mãos apertadas, os dois despediam-se, e o meu avô rematou no final «até amanhã, camarada». A máquina deu sinal, a mão afroxou, e o meu avô despedia-se de um camarada. Nem choque nem lágrima, despedi-me com «até amanhã, camarada». Ainda hoje convenço-me que teria sido a despedida que ele tanto desejaria. Era avô e camarada.

Faço parte de uma geração diferente. Sou testemunha de uma morte serena. A vida, parece-me, é que se tornou mais violenta.