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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Quarta Dimensão!

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Isto às vezes é tremendo porque a gente quer exprimir sentimentos em relação a pessoas e as palavras são gastas e poucas. E depois aquilo que a gente sente é tão mais forte que as palavras...
António Lobo Antunes
É por isto e muito mais que há quem seja «migrante» de amor e ódio do que virá.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O Mito de Empreendedorismo

O empreendedorismo não é uma moda, é uma filosofia. Empreendedorismo não se limita às antigas definições. Faz parte da mutação económico-social vigente. Não é por acaso que empreendedorismo é matéria explorada por cursos e cadeiras ligadas à gestão empresarial e à economia. 
É importante perceber que há uma inevitabilidade: todos os sistemas mudam. Estão em perpétua mudança, e não há forma de travar a mutabilidade. 

Longe vão os tempos em que a economia focava-se na produção. A economia de hoje foca-se no lucro. O lucro faz-se de duas formas: exploração de mão-de-obra e especulação. Muito ruído se faz para fugir às evidências. É preciso repetir vezes sem conta. O lucro faz-se pela exploração de mão-de-obra e pela especulação. O lucro faz-se pela exploração de mão-de-obra e pela especulação. 
Contudo, esta filosofia económica tem falhas que consequentemente levam a crises económicas, ou crises financeiras ou crises imperialistas. Ora faz-se uma crise de sobre-produção ora faz-se uma crise de especulação financeira.
Como se disse, todos os sistemas mudam. Tenta-se corrigir as sucessivas falhas. A última resposta do sistema actual é o empreendedorismo. O antigo consumidor passa a ser consumidor-produtor-consumidor. Todo o individuo passa a produzir e a consumir no binómio que se mistura e que se confunde. Produção e consumo fundem-se numa nova forma de ser. Produção e consumo passam a ser um único acto. Isto não seria mau se, primeiramente, a produção fosse orientada e organizada socialmente, e não por impulso individual; e se esta relação produção-consumo libertasse o homem como ser que usufrui a vida e as suas respectivas experiências humanas. O empreendedorismo levará o homem a extinguir-se em relações de mercantilismo. As relações autênticas não cabem nesta nova filosofia. Tudo será mercantilizado e objectificado. No passado mais recente até aos dias de hoje constatamos o óbvio: o empreendedorismo tem levado milhares de indivíduos a produzir inutilidades originais. O mercado está saturado de produtos e serviços. Aos novos empreendedores, para que sobrevivem num mercado cada vez mais desregulado, altamente competitivo, à mercê de tubarões monopolistas, é necessário e obrigatório que apresentem um novo e singular produto. Tem de ser socialmente necessário? Não. Tem de ser original e apelativo e tem de fazer lucro. Milhares de empreendedores vestem gravata e fato-macaco. São patrões e empregados. Laboram sem horários fixos. Não recebem ordenados fixos. Todo o lucro é revertido como capital de investimento. Se não o fizerem, se preguiçarem naquilo que definiram como período de descanso, estarão condenados a perecerem nos escombros do mercado livre. Todo o tempo é dinheiro e é uma corrida pela sobrevivência. Só se produzirá lixo e gerações futuras em desespero. Aqui está o novo mito de Sísifo. O Mito do Empreendedorismo. 

Para concluir. Muito se tem falado sobre empreendedorismo. Ainda hoje passou na televisão um anúncio que dizia algo como:
«os portugueses são aventureiros e empreendedores»
Os telejornais guardam para o fim crónicas sobre empreendedores de sucesso. 
Mais uma vez: muito se tem falado sobre empreendedorismo. Como fórmula mágica para sair do desemprego. Como solução para quem quer sair do emprego que o torna miserável. Contudo, há pormaiores que são omissos. A esmagadora maioria dos indivíduos que opta por se tornar empreendedor precisa de um empréstimo bancário para capitalizar o projecto. Estatisticamente, a esmagadora maioria dos empreendimentos falha no primeiro ano de existência. Isto resulta em dezenas, centenas, milhares de indivíduos que contraíram um empréstimo bancário que os irá sufocar para o resto da vida. Nada disto se tem falado. Outra questão pertinente prende-se no interesse da banca privada. A banca privada vive da especulação, e o produto que se especula é a dívida. Com a crise imobiliário recente, o ganha-pão da banca privada esfumou-se. Esta nova filosofia que se tem espalhado como infecção é exactamente aquilo que a banca privada precisava. Novos empréstimos bancários que criarão novas bolsas de dívidas, e que resultarão, novamente, em especulação. Quantos mais se aventurarem pelo empreendedorismo, mais a banca privada agradece. E acreditamos, sem sombras de dúvidas, que nada disto é por acaso. 
É necessário e urgente compreender que esta nova filosofia é uma mutação dos sistemas regentes. Contudo, e por muita operação de cosmética que desenvolvam, as principais contradições estão lá todas. Para terminar, um facto histórico: esta filosofia só acelerará o suicídio que o sistema capitalista está condenado a cometer. 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A Responsabilidade dos Jornalistas: As Mentiras que Matam Milhões

Recordamos o livro «Os Sequestrados de Altona», de Sartre, e assalta-nos à cabeça uma imagética: o tribunal de caranguejos que julgarão, à luz do passado, a humanidade. No rodopio da imaginação, sonhamos com magistrados-crustáceos gigantes com antenas perscrutadoras da verdade, e no foco do julgamento uma trupe de gente mirrada, olhos hesitantes, rubor de bochechas. Chamados à audiência, como tantos outros que já foram e tantos outros que ainda o serão, os jornalistas. 
Sem processo kafkiano, um julgamento célere:
CULPADOS
Vós sois CULPADOS
Vós sois a vergonha.
A mentira tem perna curta.
O revisionismo histórico tem perna curta.
A deturpação, corrupção, logro, intrujice, filha da putice, tudo com perna curta. 
E somos nós que vos encurtamos as pernas. De passo em passo, vão de encontro à sentença: culpados.

Para quem desenvolveu consciência sobre o assunto, percebe que a comunicação social faz parte da máquina repressora de um Estado digno do que é: um Estado. Não há novidade. Muitos intelectuais se debruçaram sobre a matéria [1].
Éramos uns pirralhos quando a professora
stôra
senhora professora doutora
sobreexcelência chanceler eminência
vaquinha cabrinha putinha
nos dizia, da sua perspicaz erudição académica, que o «poder está na comunicação social».
Está? Sabemos que não. Como a mentira, a ideia estúpida também tem a perna curta. A comunicação social é um tentáculo, e não o polvo em si. Há outros tentáculos: justiça, segurança, instituições estatais, etc.. Perguntamo-nos: mas o Estado é o fim em si? Obviamente que não. O Estado é uma abstracção de algo que o supera. O Estado é um vassalo da intencionalidade. Sejamos directos: o Estado burguês é um instrumento do Grande Capital. Outros Estados serão instrumentos de outras intenções. Em remate, afirmamos convictamente que a comunicação social é uma vassala de uma hierarquia de vassalagem. Mas se a comunicação social é o que é, então é justo prolongar a sentença aos assalariados jornalistas? E é aqui que escorregamos na dúvida. Se por um lado compreendemos que os assalariados também são vítimas, por outro lado ficamos indignados com o papel que representam. Dentro da classe dos jornalistas, há quem se esforce para repôr a honestidade da profissão. Os outros, a maioria, continuam a abandalhar as responsabilidades. E esses trazem as mãos enxaguadas em sangue. São carrascos. Espalham a mentira. Morrem milhões e as notícias fluem nos alardes da mentira. Carrascos. 

Aos que abandalham as responsabilidades, alagados de pútrida morte, não terão julgamento com crustáceos gigantes. Não serão caranguejos a julgar a humanidade. Serão os homens, com as suas vozes humanas, com dedos humanos em riste, com consciência humana, que dirão, à trupe dos mentirosos:
CULPADOS.

[1] Recomenda-se a leitura de Manufacturing Consent de Edward S. Herman e Noam Chomsky
Imagem retirada daqui

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Uma Cabeça em Carrossel com Sabor a Vinho

E se os corredores nos devorarem o apelo à vida, enquanto serpenteiam, entrecruzando-se labirinticamente, conforme as noites que se deitam sobre nós numa mancha oca, dado que as sombras não pesam mas manifestam-se, como quando desenrolamos a cabeça em ideias, ou espectros de ideias, e olhamos a rua pelos rectângulos dos estores, e se escrevemos olhamos é abuso, posto que os olhos enevoados, envoltos numa cegueira de quem está distraído
(distrai-se pela periferia sem atacar o problema de frente)
e puxamos cigarro após cigarro, copo após copo, lembrança após lembrança, e cansados dos rectângulos dos estores, mais ébrios do que era expectável, avançamos com os pés desorientados e com as mãos encostadas à parede rumo à cama com lençóis revoltados, juramos que não nos caem lágrimas
(recusa assumir que o seu corpo lhe dá sinais porque quer recusar a resposta óbvia às suas dúvidas da mesma forma que escreve e escreve e escreve e depois perde-se irremediavelmente em disparates e em alegorias insípidas e inúteis e já reparou que nunca responde como se o contraditório fosse ruído de fundo)
e juramos que as lágrimas são não lágrimas, da mesma forma que os pés não estão trocados, visto que foram alguns copos que se entornaram no nosso estômago, conforme andamos com pernas hesitantes sem fugir ao encosto da parede e na vertigem da cama deixamo-nos cair de costas, e dá-nos vontade de perguntar que carrossel é este uma vez que a cama gira sem parar, e não conseguimos assentar o olhar nem as ideias, contudo nada disso nos importa, há pouco estivemos envoltos numa cegueira de quem está distraído, agora estamos envoltos numa confusão de quem se sente absurdo, e puxamos cigarro após cigarro, copo após copo, enquanto a cama se revolta em rodopios e nós nos agarramos aos lençóis com medo de sairmos lançados pela janela fora, e num esforço enérgico endireitamo-nos, sentados, na esquina da cama, de cotovelos nas pernas e com as mãos que seguram uma cabeça que rola em todos os sentidos, mas que puta de carrossel é este
(é o carrossel que faz da vida e como não consegue parar fica impossível de ver as coisas como elas são)
e há este zumbir distante que se faz notar cada vez mais, dado que o telemóvel está a dar sinais de vida, e se sondamos o bolso esquerdo das calças é engano, e a nossa experiência do absurdo é isto, falhamos sempre à primeira e quando vamos ao segundo já o fazemos em desespero, e do telemóvel um balbuciar de palavras desconexas e uma sensação do que há confirmação do que se estava à espera
(tudo o que faz é confirmar passivamente o que estava à espera sem perceber que estava à espera das confirmações que lá no fundo sempre desejou)
e amanhã já sabemos que o hospital nos espera, e vagueando de pernas trocadas, camisa desapertada e braguilha aberta, confirmaremos em papel e assinatura um óbito e um início de processo, e de pé para pé, solas escorregadias em permanente carrossel, iremos serpentear, entrecruzando labirinticamente, os corredores que nos devoram o apelo à vida.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Episódios do Absurdo #3

Kowloon Walled City

“What fascinates about the Walled City is that, for all its horrible shortcomings, its builders and residents succeeded in creating what modern architects, with all their resources of money and expertise, have failed to: the city as ‘organic megastructure’, not set rigidly for a lifetime but continually responsive to the changing requirements of its user, fulfilling every need from water supply to religion, yet providing also the warmth and intimacy of a single huge household.”
“It was also, arguably, the closest thing to a truly self-regulating, self-sufficient, self-determining modern city that has ever been built”
“Here, prostitutes installed themselves on one side of the street, while a priest preached and handed out powdered milk to the poor on the other; social workers gave guidance, while drug addicts squatted under the stairs getting high; what were children’s games centres by day became strip show venues by night. It was a very complex place, difficult to generalise about, a place that seemed frightening but where most people continued to lead normal lives. A place just like the rest of Hong Kong.”  (Leung Ping Kwan)

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sábado, 30 de novembro de 2013

Obrigado, Meu Deus!

Há tanta coisa errada no mundo, tanta coisa que não bate certo, coisas tão mas tão parvas, que só para ter conhecido um pouco disso já valeu a pena ter nascido. O pior é cair no vício de perguntar Porquê?! - embora seja sempre uma questão pertinente. Não admira, pois, que a maioria dos símios da nossa espécie se virem para Deus. A metafísica reconforta-nos quando as respostas da razão são insuficientes.

Esta conversa não vem ao acaso.

Se os olhos ainda não repararam, talvez os ouvidos vejam primeiro: aqui.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Mas que faço eu aqui?!

Mas que faço eu aqui?! - é uma questão que surge com alguma regularidade, pelo menos a mim. Não que me ofereça vulgarmente ao acaso e as suas consequências, mas mesmo quando estou em situações em que fui levado pela razão, um sentimento de inutilidade e ausência de sentido ressurge.

Ontem fui levado pela razão a uma assembleia de freguesia. Fazia todo o sentido ali estar, ainda mais tendo participado numa das listas eleitorais. Mas nada me preparou para o que assisti.

A sala de reuniões não tinha espaço para o público assistir. Fiquei do lado de fora sentado com o restante público. Pareceu-me claro que o público não é bem-vindo e que um pouco de tudo se faz para evitar que ele insista em aparecer nestas reuniões. Mas o pior está por referir: a assembleia foi convocada e dirigida com um tremendo amadorismo por parte da presidente da mesa. Fiquei com sérias dúvidas que ela fosse ao menos literada.

A falta de brio e competência da presidente da mesa resultou em mais de três horas de reunião só para tratar do assessório, meras questões (que deveriam ser) formais. As leis da República foram ali muito mal-tratadas. Em boa verdade, o que ali se viveu é indescritível. Mas o pior ainda não foi contado.

O maior mal que senti ali, ao assistir àquela assembleia, foi que o seu sentido se esvaziou para quase todos aqueles que ali estavam. Questionava-me: "Mas que raio faço eu aqui?!". Pensava: "Mas isto existe?! Sairá alguma coisa de útil daqui?!". Constatava: "Isto é surreal!! Absurdo!!".

Um vazio assombrou-me. Só consegui estar presente durante três horas a esta assembleia da união de freguesias. Foi quando finalmente a ordem de trabalhos começou a ser tratada. Incrível o tempo perdido por causa de evitáveis problemas formais provocados por uma inútil!

A assembleia foi uma fonte de reflexão sobre o Absurdo. O conceito de alienação ganhou em mim uma dimensão nova, kafkiana e muito real.

A quem serve tal presidente da mesa ao ser assim? Penso que ela é quem ali tem um sentido de existir, e quase mais ninguém. Ela existe para nos sugar as almas, alimenta-se do nosso esforço para conseguir um sentido à nossa existência. Ao pé de tudo isto, Kafka, mesmo que tivesse escrito uma versão de Drácula, continuaria a ser um menino.

Tenho quase a certeza de que a luta dos eleitos naquela sala engloba a necessidade de continuarem a acreditar que a sua presença ali faz sentido.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013