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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Centelhas que ainda Faíscam #2

Paper Memories

Obra de Theo Putzu, realizador e fotógrafo oriundo das calles de Barcelona, que subtrai do Homem a solidão para reencontrar-se com âmago da humanidade: a memória.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Sr. Romeulloy [conto – versão definitiva]


Tenho uma perna maior que a outra. Ou o chão é inclinado. Não sei. O tamanho da perna sei que não será exactamente igual à outra, mas será isso que me desequilibra para um lado? Talvez a ligeira vertigem lateral se deva a isso. No entanto estou de tronco inclinado para a frente, observo o chão de cima, olho os meus pés, e um estará mais abaixo e outro mais acima. O pé abaixo está mais abaixo em relação ao mais acima, o de cima está mais acima do que o que está mais abaixo. Assim parece. Excepto se for o chão que se inclina e, em vez de um desalinho, há antes um alinhar de alturas em relação a um referencial que não vislumbro. Isto de precisar de uma referência comparativa é limitador a uma análise. Em referência contra o chão escolheria um objecto recto, e contra os pés escolheria algo não recto. Talvez um pato, sem bico. Mas estará o chão torto? Terei os pés em bico? Ou será antes inclinado o referencial que nem vislumbrei ainda? Certo é que algo não está direito. E daí, não sei. Saberá alguém se é do chão, dos pés, das pernas, ou de outra existência mais? Será da coluna? Não sei se a tenho devidamente alinhada! Na minha idade, penso que não a terei. Mas estará a coluna dessa outra pessoa direita? Qualquer das causas pode ser a explicação para o desalinho vertiginoso enquanto olho o chão. Sinto. Um pé maior que o outro não desalinharia o chão. Qual seria a causa? Teria um deles podido desenvolver-se mais por desalinho do sapateiro tal como certos peixes que crescem proporcionalmente ao tamanho do aquário? É certo que não sei. E daí, talvez nem isso seja garantido. Ponho fora de possibilidade eu ter ao fundo das pernas dois peixes. Entenda-se: um ao fundo de cada perna. Não, eu não posso ter dois peixes em vez de pés, isso é certo, senão, à noite não conseguiria dormir com o cheiro. Enjoo. Virá daí a náusea que me revira o balanço? Olho o chão, olho melhor, e nada concluo. Danço! Não, estou parado. Incerto se danço ou se permaneço de pernas e tronco hirtos perfazendo um ângulo de noventa graus. Talvez sejam duzentos e setenta os graus. Não estou certo. Que terá entortado a coluna? A mochila da escola? Era pesada. Se calhar nem era. Mudava periodicamente de ombro para as torções na espinha se equilibrarem ao final do ano lectivo. Mas não estou certo de ter distribuído justamente o peso. E agora que o sinto, lembro que tenho um testículo maior que o outro. É o direito. A mochila terá sido repartida pelos ombros tendo em conta a relação entre testículos? Não, não foi. Nem me lembro se foi. E agora não sei qual dos testículos é o maior. É o esquerdo. Não sei. Confirmaria com a devida apalpação, mas desequilibrar-me-ia. Não é que eu saiba onde tenho as mãos, mas sei que me revelaria ao chão. Ao menos se rebolasse ficaria a saber que ele é inclinado. Mas, pensando bem, nada mais tomaria conhecimento quanto aos meus pés, pernas, coluna, ou, já não me lembro das outras possíveis variáveis às vertigens. Lembrei! Lembrei! Era os pés, as pernas e a coluna. Lembrei! Contudo, estou certo que ando esquecido. Qual era o ponto de partida de tudo isto? Ajudar-me-ia sabê-lo?! Recordo então que foi, salvo erro, eu não conseguir dormir com peixes nos pés. Se é que não sonhei com isto. Não sei. De erros ninguém está a salvo. Certo é que tenho um testículo maior que o outro em relação a um referencial que não vislumbro. Mas com o chão inclinado como está, nada conseguirei vislumbrar. Um pé maior que uma sapateira, acho que falei em sapateira. Ou terá sido antes em sapateiro? Com isto tudo perdi-me da minha namorada. Tenho namorada? Será aquela ali? É ela! Não sei. Se calhar preciso dela como de uma bengala. Não tenho pernas, penso. Isso explica muita coisa. Onde está a minha namorada quando preciso dela? Preciso, se ela for direita. Se for torta não será um bom referencial. Ou então não o é se for direita. É importante um referencial para o próprio referencial. Ou bastará fixar um qualquer? Acho que tenho um pé maior que o outro. E daí, não sei. Mas preciso dela, da minha namorada. Se é que tenho uma. Quero-a, mesmo que não tenha nenhuma. Preciso dela. Serei viúvo? Se calhar a viúva é ela. Mas preciso da minha enamorada. Usá-la-ei como calço.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Contemplar o Skateboarding: Centelhas da vida



Recordando o Skate.

Em mim, há todo um revivalismo. 
Intrepidez. Vertigem em tons de asneira. Puxar de um cigarro, prancha no pé e lanço de escadas a dar-lhe três quatro cinco metros, rumo à aventura. Havia sabor de juventude nos desafios à gravidade, enquanto ouvíamos e ouvíamos e ouvíamos At the Drive In, e enquanto ouvíamos e ouvíamos e ouvíamos, o cigarro mingava, o J. fazia-se à atmosfera, foguetão rumo à electricidade da queda.
Na escola, um gajo com «cabelo à foda-se», «cabelo à beto», dizia-nos encarecidamente
«skate é para podres»
Beto, surf, «cabelo à foda-se», PPM a tons de azul e branco
«skate é para pobre
Vai-te foder filho da puta.

Skate que se praticava em Lisboa era skate de becos, traseiras, betesgas mal amanhadas. Skate como arte de imaginação. Transformar o meio urbano para a prática dos saltos com prancha. 
Vizinhos, gente com cabeça raquítica, bófia
(alguém ainda usa o termo chuis?)
Havia alguém que reconhecesse o valor do skateboarding?
Não nos interessava. Desde que o J. saltasse o que tinha de saltar, desde que me espetasse onde tinha que me espetar, o mundo girava com toda naturalidade. 
Vejam o skate. Vejam com olhos de ver. Há transformação do quotidiano. Há novas formas e novos caminhos e novas visões da cidade urbana. Há toda uma imaginação condensada em pés, prancha e voo. Há coragem e estupidez. Inseparáveis. Tanta burrice em quem parte o braço e está pronto para outra tentativa. E quando um gajo tirava um «coelho da cartola»? Todo um grupo eufórico. Cada vez mais estímulos para tentar o impossível. O J. saltar um  lanço de três quatro cinco metros, aterrar sobre a prancha com ar de «no pasó nada», e todos nós aos pulos. 

Para finalizar, um pequeno apontamento. 
Consciência de classe? Só na minha cabeça. Naquele tempo, quer houvesse ou não consciência, andar de skate era uma questão de classe. Andar de skate era não recear partir os punhos e era não recear as proibições e os preconceitos. 

Um bem haja às memórias que guardo do Skate. 

domingo, 19 de janeiro de 2014

A Noite Em Que Abraçámos a Intempérie


Esta noite chove e troveja e a escuridão deixa-se intervalar com um derrame de luz amarelenta dos candeeiros, e há uma qualquer sensação de conforto quando se está em casa, apartado, seguro, enxuto, e lembro-me de estarmos exaustos, eu e ela nus, três da madrugada: tínhamos feito o amor. Levantei-me, puxei os estores, abri a janela, pensei em dobrar-me para o exterior, fumar um cigarro, a intempérie convenceu-me a não fazê-lo, resguardei-me, o céu rasgado em fendas luminárias. Ela acendeu a luz do quarto, surgiu-me uma hipótese, uma idiotice, e a caixa de estores a tamborilar, pedi-lhe para que confiasse, dissesse que sim, e ela anuiu. Vesti-a com exagero de agasalhos, impermeabilizei-a. Vesti-me com exagero de agasalhos, impermeabilizei-me. Fomos à rua, e toda a chuva nos fustigava, e todo o vento nos fustigava, e todo o tempo inclemente nos fustigava, e abrimos os braços
(um abraçamento)
e a trovoada que repele, malcriado, grosseirão, e dobrou esforços: mais chuva, mais vento, mais lampejos celestiais. E nós mais abertos, mais seguros, mais tudo, e corremos rua abaixo, rebeldes, indomesticáveis, e o vento mais agressor, alimentador de remoinhos
(remoinhos?)
alimentador de tornados, e no funil ventoso havia folhas caducas, e jornais caducos, e uma enciclopédia, e juro que não um autocarro, mas dois, e ainda um coelho, não daqueles moles e amorosos, um coelho antropomórfico
(não é o teu alterego?)
que vociferava e praguejava, e nós a darmos-lhe toda a razão, e o tornado a desajeitar-se na sua viagem, indiferente aos impropérios do coelho, e que interesse tem o animal, nenhum, desde que não lhe ofereçam oportunidade de governar um país, e o tornado a despedir-se, e nós a retribuir o adeus, e a atmosfera que não se esqueceu, a brindar-nos com granizo, e é certo que no meio dessa confusão toda veio-me à memória um parque infantil, daqueles que foram desaparecendo, daqueles com baloiços e afins, daqueles com estruturas a lembrar castelos medievais, com uma torre de vigia, obstáculos, pontes, um escorrega, e corremos para lá, para a torre, para aquela cabana improvisada, abrigados dos cubos de gelo que caíam a potes, e lá sentados, abraçados, a recuperar fôlego, e depois ela às gargalhadas, a achar que tudo aquilo fora uma parvoíce, e eu à procura do maço de tabaco, a constatar que talvez tenha caído com tanta correria, e a imaginar o tornado a fumar os cigarros todos, e eu meio triste e meio contente, e ela ainda a rir-se, e fiquei a olhá-la por imenso tempo, e depois de rir-se, ajeitou o cabelo, e depois retribuiu o olhar, já mais séria, mais calma, e toda a cabana a devolver a sensação de estarmos apartados, seguros, enxutos, e depois,
e depois,
beijei-a.

Esta noite chove e troveja e a escuridão deixa-se intervalar com um derrame de luz amarelenta dos candeeiros, e surge uma nova emoção, estranha, ambígua, que se deixa substituir por uma espécie de ansiedade, uma vontade de pegar no telemóvel e telefonar-lhe. É sobretudo uma ansiedade em desistir da saudade e de não me conformar com a beleza das memórias, mas o telemóvel deixa-se acomodar na bolso, e a madrugada já me contagia de sono, e neste preciso momento, já só me quero abandonar nos lençóis, apartado, seguro e enxuto. 

Imagem retirada daqui

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Havia Dois Eusébios

Por vezes, só entendo a beleza das coisas no comprimento do tempo. 

Eusébio [1]
Lembro-me das traseiras dos prédios Benguela. Chão de pedra polida, muros de betão, balizas a graffiti branco, skates, bando de marginais a chupar o primeiro cigarro, dois palermas de cara chupada de garrote no braço,
(uma seringa perdida no chão?)
bola Mikasa no centro, atacadores que apertam as Sanjo, nervos exasperados, um relógio digital a sugar minutos,
- o filho da puta nunca mais chega
a escola já tinha acabado, número ímpar invalida duelo de campeões, havia uma equipa incompleta, e os minutos a sugar o relógio digital, e o pessoal de punhos cerrados, dentes cerrados, olhos cerrados, e os marginais a tossir o primeiro cigarro, e os de cara chupada a torcer a boca, e as miúdas agrupadas em falanges de curiosidade, e o P. enervado,
- mas o filho da puta nunca mais chega
a sugerir substituto no bando de marginais, e o D. a promover linchamento para o dia seguinte, e um casal de velhotes dobrados sobre sacos de plástico, e a B. a perguntar por mim,
- mas o filho da puta nunca mais chega
e as miúdas agrupadas em falanges de curiosidade a encolherem os ombros, e o bando de marginais a chupar o segundo cigarro, e os dois palermas de olhar cego sobre as traseiras dos prédios Benguela, e um rapazolas a dar autógrafos numa parede, e a B. a apertar o vestido como quem aperta a volúpia, e o P. a dar mais cinco minutos de tolerância,
- filho da puta
quando o bando de marginais expele uma nuvem, de passo lento mas seguro, o número par, o criminoso, o atrasado, o
- filho da puta
aparece para dar início ao duelo de campeões, e o D. a pedir satisfações, e o P. a achar que «arraiar calhaus» não é desculpa para o atraso, e a B. a piscar o olho, e eu a piscar o olho, e o casal de velhotes 
- com licença
e os dois palermas a abanarem-se como palmeiras.

Bola Mikasa no centro, duas equipas já decididas. Faltava o essencial. Cada um de nós personificava o nome do craque preferido,
- Rui Costa, Preud'homme, Yordanov, Costinha, Maradona, Figo, Baggio, Futre, dois Eusébios.

O meu Benfiquismo era autodidacta e de aprendizagem obsessiva. Houve quem me visse com potencial para transportar a mística do clube. Alimentaram-me com cassetes e com imagens a preto e branco. Soava-me a estranho. Faltava Parmalat. Aprendi a falar Eusébio. O King. O Pantera Negra. Havia Pelé para o Brasil. Havia Eusébio para Portugal. Aprendi o chuto. Pé esquerdo ao lado da bola. Pé direito esticado. Costas dobradas. Cabeça a apontar para o golo. Bola ia sempre em meia altura. Não dava «três pontos para o País de Gales». Dava golo. Em duelo de campeões, eu tinha de ser Eusébio.

JM era sportinguista. Era lagarto. Sofreu horríveis túneis da morte. Carolos, belinhas, calduços. Não renunciava o verde e branco. Chorava o seu sporting como nunca vi chorarem pelo Benfica. JM era doente. JM era doentio, amava o sporting, odiava o Benfica. Amor que se cuspia pela alma. Ódio que se regurgitava pelas vísceras. Falava-se em Benfica e o gajo virava as costas, ofendia-se, descompunha-se e remediava-se para longe. Nunca dissera São Domingos de Benfica. Atalhava o nome em São Domingos. JM tinha um ídolo. Queria personificá-lo sempre que pudesse. Não sei onde aprendeu ele a falar Eusébio. Queria sê-lo. Fazia por sê-lo. 

Bola Mikasa no centro, duas equipas já decididas. Faltava o essencial. Cada um de nós personificava o nome do craque preferido. Havia dois Eusébios. Só podia haver um. Discutíamos. O meu Benfiquismo legitimava-me o Eusébio. JM trazia um saco. Uma camisa vermelha dobrada. Número 10 e Eusébio cosidos nas costas. Emblema do Sport Lisboa e Benfica cosido na frente. JM vestiu a camisa, e a malta estupefacta, e o bando de marginais estupefacto, e as miúdas agrupadas estupefactas, e os dois palermas sempre estupefactos, e o casal de idosos com sacos furados e duas latas de salsicha a rolar no chão de pedra polida, e o puto-estrela a distribuir autógrafos estupefactos, e os prédios Benguela dobravam-se para enganar a miopia, e constatavam a estupefacção geral, e eu soltava impropérios,
- filho da puta 
e o JM dobrava os ombros, e o JM já não era JM, era Eusébio. No duelo de campeões tivemos Eusébio. Também dobrei os ombros, e eu já não era eu, era Isaías. E nesse dia, tivemos um Eusébio que deu um grande bacalhau a um Isaías.

E só hoje, num comprimento de vinte anos, é que entendi a beleza do Eusébio.

[1]  Imagem Original

domingo, 22 de dezembro de 2013

A Minha Raiz Escura.

Rua da Escola Politécnica [1] 
Há dias era Verão. Raízes escuras cresciam nos nossos pés.
Raízes?
Sombras.
Sombras escuras cresciam nos nossos pés. Hoje é Inverno. As sombras parecem-me mais modestas. 
No Verão, Lisboa é film noir. Luz e sombra. Acção: vejo-me parado na Rua da Escola Politécnica. Estou a tentar enrolar um cigarro. Faço-o parado, calmo, sol junto à nuca. Reparo na minha sombra, raiz dos pés à parede. Ainda ocupado a enrolar o cigarro, a sombra estica o braço e acena-me. Quase deixo cair o tabaco. Um susto que se transforma em curiosidade que evolui para satisfação. Uma sombra que comunica. 
A razão invade-me. Olho para trás: afinal a sombra não me pertence. Tristeza. Enrolo os olhos para baixo e sigo a minha vida. 

[1] Imagem retirada daqui