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quarta-feira, 4 de março de 2015

Sr. Romeulloy III - Entre o Nada e o Ser

Em breve ver-me-ei a falar de mim, e só para mim, na terceira pessoa. Algo em breve me acontecerá. Só que ainda não o sei.

Estou no banho. Dão-me banho. Não sei se estou deitado na banheira ou se sentado ao chuveiro. Os meus movimentos não têm agilidade, ou terão? Meus olhos não focam, se focam vejo desfocado e nublado. Cataratas no chuveiro? Parece que vejo bem a poucos centímetros do nariz, as faces são o que me interessa aos olhos, progressivamente vou vendo melhor a focos mais distantes, mas apenas faces próximas de afecto. Cataratas de água, cascatas de nuvens quentes, ou olhos cansados? Não me consigo equilibrar. Soubesse ao menos se estou sentado num banco no duche, ou se deitado numa banheira de plástico dentro de outra banheira maior de cerâmica. Não consigo ver, percepcionar, discernir sequer meus movimentos. Puxam-me os cabelos. Será que os puxo a mim próprio? São poucos os cabelos, isso eu sei. Não sei se crescem ou se caem. Pelo menos dois tenho. Nem sei. Não sei se cresço ou se mingo. Não sei se ganho ou perco visão. Não sei se me ergo ou se me estendo. Não sei que idade tenho.

A partir daqui, inexplicavelmente, vejo-me na impossibilidade de falar de mim na primeira pessoa. Algo me aconteceu. Ou algo ficou por me acontecer. Seja como for, neste momento eu não sou nem me tenho. Isso sei.

Levam-me com urgência para as Urgências. Levaram-me com urgência para as Urgências. O pretérito perfeito, apesar de incerto, confunde-se-me com o presente. Urgência! Assisto-me de fora do corpo o meu corpo. Mas tive corpo? Não sei sequer se aquele meu corpo que olho foi ou será meu. Pulseira amarela ao pulso. Não sei se no meu pulso ou se no de alguém que me acompanha. Meu amor?. Expressões de temor em quem me rodeia. A minha expressão é-me enigmática. Nem consigo perceber se estou ali deitado numa maca, ou se estava ali ao colo de um braço alheio com fita amarela. Mãe?. Nove horas de espera! Corredor sem corrente de ar, paredes?, escuro. Estava frio. Está muito frio. Cada vez mais frio. Alguém se afasta de mim. Não sei se de braços abertos a fecharem-se ou se de pernas abertas a tapar-se. Dois corpos frios se aproximam daquilo que serei eu. Não sei se caminham ou se levitam. Nem se têm corpo. Aproximam-se do que fui eu. Tiram a pulseira amarela e deixam uma etiqueta. Penduram-na no dedão do pé. A etiqueta Nº 251175.

* * *

O Sr. Romeulloy está impossibilitado de se ser. Não pode, portanto, usar as palavras. Deixou de se falar. Deixou de se ouvir. Todas estas prosas que lemos de Romeulloy não eram mais do que os seus pensamentos ou conversas solitárias. Um quadro semântico pintado em tela de vácuo. Efémero, excepto entre o início e o fim.

Link para Sr. Romeulloy

terça-feira, 25 de novembro de 2014

A Viuva Enjeitada

Isto é uma história verídica. A impotência - cruzes canhoto! - era o maior drama do sr. António, que sobrevivia com sua mulher. A reforma não era boa, chegava a faltar-lhe para os medicamentos, mas o pior era ter uma mulher marreca.

Um dia o drama do sr. António deu uma reviravolta. Tudo aconteceu quando sua mulher perdeu, enquanto limpava o chão da antiga fábrica, o contacto com o chão. Diz quem viu, que ela no ar já ia desmontada e que se terá socorrido de uma Avé Maria que não finalizou. O chão interrompeu-lhe as preces. Esmigalhou o tornozelo. Partiu uma perna em duas. E ao tentar levantar-se abriu o pulso. Mas a reviravolta surgiu aos olhos espantados da vizinhança meses depois: A queda enjeitou a mulher do sr. António! 

A nova configuração da mulher levantou o ânimo ao sr. António e a impotência curou-se.

Isto é uma história verídica, a história de duas pessoas que encontraram felicidade após uma escorregadela. Enfim, apenas é a crónica de um típico caso de vida, entre as poucas que têm um final feliz. Resta contar que o sr. António e sua mulher não viveram a felicidade por muito mais tempo. Era a impotência do Sr. António que lhe mantinha o sistema cardiovascular abaixo dos limites. Certo dia, num momento alto de suas sobrevivências e de unção dos corpos, uma coronária não resistiu. A felicidade deu cabo dele.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

António - Herói Pós-Moderno

Gostamos de heróis. Personificações dos nossos desejos capazes de lutar por concretizá-los. Embora, nunca saibamos o que exactamente desejamos lá no fundo! António, nome fictício, é um desses heróis.

António, herói desta história, foi com um casal amigo passear e, depois, já mais calmo, presenteou a família com esticar do pernil. Quem ler a notícia que poderá concluir? Esta história é um thriller da psicanálise do acaso. Esta história é mais um caso de pseudo-análise de classe, mas poucos se importam por a média não definir as relações sociais da propriedade moderna ou outra qualquer. Que interessa isso quando esta é uma daquelas histórias em que, novamente, a realidade é tão real como a ficção. António, à falta de recursos imediatos para fazer cinema (ou jogar vídeo-jogos), traz a ficção à realidade - num vice-versa que funde ambas. Imagem e semelhança. António, herói desta história, artista plástico da vida, e plástico artista da ficção, inaugura sem querer nem saber o neo-ficcismo do pós-pós-modernismo - algo que apenas no futuro ficaremos a saber e já depois de estarmos todos mortos. António ou Zé, sobrenome Ninguém ou Todos. Nós, enquanto continuarmos a escrever coisas, as coisas escrever-se-ão por elas, transformando Antónios em jornais e Jornais em antónios. 

http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=4191610#.VEYMYyNYpJo
Note-se bem. Esta notícia é antes um ensaio sociológico num enredo cinematográfico que ao ser notícia se transfigurou num acontecimento real. E vice-versa. Este acontecimento real transfigurou-se em notícia num enredo cinematográfico que é antes um ensaio sociológico da notícia.

Por fim, vamos mais ao fundo da questão e/ou sobrevoemos de vez sobre ela. António, herói desta história, esfaqueia o desejo concretizado de família e num momento social perfeito. Nenhum desejo, elevado e humanizado em fantasia, é concretizável por inteiro sem matar o sonhador. Não haverá maior pesadelo que a própria fantasia em plena realização. O abismo da plena realização para o vazio levou o herói desta história, António, a matar os seus adereços de vida mais queridos, mulher e filha, à facada! Qualquer pesadelo é melhor que o da plena realização. 

António, herói desta história, arquétipo pós-moderno das massas, Messias pós-pós-moderno, imagem de plástico da nossa semelhança, salvou-se da plena concretização com a fusão da realidade com a ficção. Mas condenou-nos a todos. Os textos noticiosos, fictícios ou não, tornaram-se o enredo da vida, sendo o inverso válido mas redundante escrevê-lo. O fim está próximo. Basta alguém escrevê-lo. Fim.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Crónica de uma Bomba de Gasolina à Noite

E se a mentira que o homem constrói não for a negação das condições do plano da existência mas antes a refracção da própria realidade, dado que a mentira transporta em si os elementos que definem a verdade, como um olhar que capta uma silhueta e especula sobre o objecto, reduzido ao intervalo das possibilidades reais, e é nestas considerações que a madrugada nos leva à bomba de gasolina, daquelas estações que permanecem abertas quando a noite tudo silenciou, e neste cenário o foco centra-se numa mulher jovem de etnia africana, gorda, pouco atraente, olhos cavados, uma cara rebentada de borbulhas, e faz-nos lembrar um ferrero rocher sem que a consciência nos impeça de tecer opiniões deselegantes, pois nesta crueza descritiva há uma validação preambular, mas voltando ao âmago narrativo, temos uma pessoa feia e gorda acabada de sair do trabalho, visto que ainda traz consigo um uniforme da empresa de limpezas, e imaginamos que terá vindo à loja a caminho de casa, uma casa que deve resumir-se a uma sala pequena com kitchenette, uma casa de banho e um quarto do tamanho de uma dispensa, e com isto se define uma casa porque assume uma exposição básica dos elementos que definem uma casa, um espaço que delimita as fronteiras do interior para o exterior, em que se encerra, mesmo quando arrendado, a ideia de propriedade, porém esta personagem não deve desenvolver a consciência para discutir estas, e outras, significações complexas, resumindo a sua relação com o espaço através de construções emocionais relativas à posse e ao status quo necessário para a sua integração social, visto que os seus vínculos sociais dependem da afirmação das condições que constroem as suas expectativas idiossincrásicas e culturais, o que por outras palavras significa que se não possuir um espaço que se possa definir como casa, pode sentir-se rejeitada por um meio envolvente que força a ideia de posse como requisito social básico, e na continuação desta ideia, vêmo-la a comprar duas revistas de moda, vários pacotes de bolachas e chocolate e um saco de pipocas, e não nos é difícil de adivinhar que quando chegar a «casa», e assim que ligar o televisor, não para seguir a programação mas simplesmente para se sentir acompanhada, abrirá as revistas onde constatará que há mulheres que são terrivelmente atraentes, afogadas em luxo e em estatuto de elite, que nada fizeram da vida com mérito próprio, à força do trabalho e do intelecto, mas tão só nasceram com genes que as favorecem nesta geração da humanidade, e esta nossa personagem afirmará nos interstícios da consciência comiserativa que a vida é injusta, e mais uma vez adivinhamos que entre lágrimas recalcará o vazio com chocolates e bolachas e pipocas, com um intuito suicida de sabotar o seu futuro, caminhando num trilho oposto ao projectado, e tudo porque a frustração e a angústia levam-na a odiar-se diariamente, seja no trabalho ou seja em «casa», recusando procurar outras ferramentas para concretizar os seus desejos e necessidades, não só por estar alienada, mas porque precisa de alimentar a mentira, e é esse o ponto nevrálgico deste discurso, dado que os sujeitos constroem mentiras não para negar a miserabilidade da vida, mas antes para se impedirem de constatar essa mesma miserabilidade e transformá-la em algo mutável, pois é mentindo-se que estorvam a mudança e a concretização das projecções pessoais, acabando por realçar e sublinhar a realidade da sua situação, e ao analisar todos os elementos que definem a mentira encontramos a silhueta da verdade, e quando a nossa personagem acordar no dia seguinte, ainda no sofá, com a televisão acesa, duas revistas que provam a insignificância da sua existência, embalagens de plástico vazios, um rosto com rímel borrado e duas novas borbulhas, bastam-lhe um saco do lixo e uma cara lavada para recomeçar um ciclo de autocomiseração que só terminará com um enfarte do miocárdio, c'est fini, kaputt, arrivederci, e tudo isto seria irrelevante se fosse um caso excepcional, mas não o é, pois a mentira continua a ser interpretada como a negação da verdade e não como a refracção da realidade, impossibilitando a tradução das angústias humanas em qualquer coisa transformável.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Crónica de uma Lembrança

Quando as luzes se apagam são vultos que vagueiam nas penumbras das ideias, sombras que se afastam e que se aproximam, em silêncio, nas madrugadas pesadas e longas, madrugadas insones, dado que nos assalta uma sede, uma garganta de pavores nocturnos, uma violência que se remexe nos nossos intestinos e já só nos resta ir ao frigorífico, no resgate do vinho branco, a profilaxia que os nossos instintos nos recomendam, e quando puxamos pela porta do frigorífico há aquela resistência de vácuo que nos dificulta as soluções mais fáceis, soluções que também são as mais frágeis porque nos atiram para um limbo, uma corda bamba de estados emocionais, uma dúvida que nos oprime a consciência, no entanto a porta cede e dá lugar à luz que nos estonteia os nervos, piscámos os olhos, com uma mão protegemo-nos da cegueira e com a outra buscamos a garrafa, recordamo-nos de uma infância, de uma feira, que hoje detestamos, aquele espectáculo de desordem e confusão, e gentes que se comunicam em decibéis difíceis de suportar, e é tão fácil os nossos olhos se perderem nas dezenas de barracas, e nas centenas de inutilidades que se vendem, e toda aquela sensação de sorrisos falsos e intrigas e desonestidades, toda aquela sensação de vivências marginais, tudo tão circense, da mesma forma como detestamos o circo, já não suportamos aquele modo de vida paralelo porque sabe-nos a logro e a fantasias do degredo, e vemos o nosso pai a regatear fruta num diálogo de compadres, num jeito de amizade forçada que tilinta uns cobres que se trocam por um saco de maçãs ranheta, uns sorrisos, uma gargalhada que se confunde em gargarejar, um escarro para o canto, obrigado e até amanhã, e nisto uma maçã rola da bancada e cai ao chão, e por lá se fica entre sapatos que se movem, e de pontapé para ali e outro para acolá, a maçã experimenta a turbulência do quotidiano humano até repousar num ângulo escondido entre barracas, esquecida e perdida, nem um rato que se aproximou para farejá-la fixou interesse na maçã, uma vez que foi expulsa das dinâmicas existenciais, relegada à condição do desprezo e da repulsa, uma maçã solitária em estado de decomposição acelerada, visto que foi retirada da qualidade que subjaz a matriz de existência das coisas existentes, porque fora do seu contexto cessam as razões que a mantinham no plano da sua entidade como maçã, já só lhe resta o caminho do perecimento, contaminada por um bolor de tons azuis e verdes e um arco-íris de putrilagem, nem as sementes escapam, nem a possibilidade de renascer foi-lhe dada, completamente condenada a desaparecer neste varrer de desdém que a vida nos oferece, e ao recuperarmos o presente, ainda cegos do frigorífico, desistimos da garrafa de vinho, porque já nos basta a marginalidade da noite, e é a cama que nos impele a refazer as oportunidades do amanhã, pois é o sono que nos reabilita as podridões das narrativas diárias, no entanto somos obrigados a frisar que não somos maçãs, somos homens, e mesmo quando vetados ao esquecimento, projectamo-nos nos sonhos e nas utopias, neste fluxo inesgotável de existência humana, muito para além das nossas sementes e do nosso perecimento.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Crónica de uma Noite de Verão

O que teremos a dizer à noite, dado que é nela que sentimos o beijo das ausências, tal como o contacto de peles alheias que sentimos na cama e nos perturbamos com insónias e vazio e angústia, um absurdo de movimento sem destino, e a pele que julgámos sentir uma prega de lençóis esquecidos, e saímos à rua e é um mundo de sombras lunares e são grilos que nos acompanham nestes pequenos escapes, dado que é verão, uma noite de verão, e estamos secos, boca seca, olhos secos, miolos secos, tripas secas, e beijamos o gargalo da garrafa de cerveja, e na falta de cerveja bebemos pegões, e na falta de tudo buscamos a memória das vidas sentidas e experimentamos a saudade, porém, quando nos deixamos de merdas assumimos que não há saudades, há mariquices, esta necessidade de nos prendermos ao passado porque temos medo do estalo que vem ao virar da esquina, há toda esta necessidade de nos mentirmos como se a ficção fosse, de alguma forma, mais tolerável de viver que a sobriedade das vidas comuns, e é a trocar o passo que voltamos à cama, e esperamos que os mosquitos nos deixem as veias em paz e que nos chupem este medo de viver. 

domingo, 17 de agosto de 2014

Crónica de um Deserto

As curvas fazem a vida, dado que quando olhamos o sol vemos um círculo amarelo pujante, em movimento subtil de trajectória elíptica que reflecte fulgor no metal das jantes, e quando observamos aquela mistura de pneu com estrada, borracha e alcatrão, sentimos a energia cinética traduzida em celeridade e abraçamos aquele torpor mecânico que nos aquece os nervos, uma sinfonia de potência maquinal que rasga a misantropia dos desertos áridos, solo escaldado de verão perpétuo, chão de gretas para refúgio de pequenos répteis, visto que em movimentos circulares uma águia está de sentinela, paciente, olho redondo, persistente na procura de um aperitivo, e se nos fixarmos nesta árvore, possivelmente uma oliveira, constatamos que no nada há sempre qualquer coisa, tamanho absurdo são as teias da sobrevivência, onde uma pequena aranha descansa depois do seu labor, uma vez que o conjunto das pequenas tarefas faz um outro conjunto de pequenas histórias, da mesma forma que as folhas baloiçantes da árvore são causa desta leve aragem proveniente dos recônditos mistérios do planeta, e de papel rabiscado, calculadora na mão, computador com cálculo diferencial e modelos aproximados, tentamos compreender todas as particularidades dos fenómenos reais, contudo, e porque até a sabedoria tem limites, é-nos impossível entender o que faz um carro branco, um dodge challenger 1970, em velocidade colérica, numa estrada alcatroada no meio de um deserto, e se pisarmos a fundo o pedal do travão soltamos uma chiadeira que viola os princípios do silêncio estéril e largamos um fumegar de borracha queimada, pneus que derrapam ora para um lado ora para o outro, e no alcatrão marcamos linhas pretas oblíquas até que o carro, eventualmente, pára, e uma porta se abre, e sapatos que pisam o chão e o nosso corpo que se levanta, mãos nas ancas, dobrar as costas, estalar a espinha, puxar o chapéu e tapar os olhos, é um sol que nos cega, levar a mão ao bolso das calças e puxar um maço de cigarros, e de cigarro na boca contemplar as curvas da estrada que se perdem no horizonte, dado que perscrutamos as essências das coisas até à miopia do nosso entendimento, como quando tentamos olhar para o quadro todo, uma barreira de nuvens nos proibe o abrangência do universo, e nestas condições só percebemos as pequenas coisas, amputações da realidade em fatias muito pequenas, tudo demasiado pequeno e frágil, só uma fracção da verdade, e dado que nos dá uma vontade de mijar, vamos à berma da estrada e baixamos a braguilha, um borbulhar de urina que se mistura com o pó do deserto, e reparamos, fixados, numa águia a vaguear aos círculos num céu vazio de acontecimentos, um céu tão diferente da nossa cabeça cheia de merda, visto que fazemos da nossa vida uma montagem paciente de peças de puzzle, e completamente à toa fomos encaixando partes num lado e noutro e a dado momento percebemos que o desenho não faz qualquer sentido, tamanha confusão de partes que não fazem o todo, um conjunto de disparates sem nexo que nos pesa a consciência e o juízo, acumulado numa massa enorme que nos obstrui a apreciação das múltiplas experiências da vida, e então puxamos a braguilha para cima, apertamos o cinto e, voltando ao carro, abrimos o porta-bagagens, um saco e uma pá, e saindo da estrada, dez, quinze, vinte passos, cavamos um buraco, algumas braçadas e tiramos a camisa ensopada em suor, mais braçadas, e percebemos que há este enorme buraco que temos no peito, e nele há um vórtice de emoções perdidas, assuntos inacabados de uma vida passada que nos condicionam os projectos de uma vida futura, e muitas vezes mantemo-lo porque estamos convencidos que um dia os assuntos se resolverão, mas há nós que nunca se desatarão, dado que a vida e suas experiências consequentes são exemplos extraordinários e infinitos, e o nosso entendimento é uma propriedade limitada e subordinada à alienação, e só nos resta cavar um buraco, atirar o saco dos nossos sonhos absurdos para o vazio, tapá-lo, e finalmente voltar para casa visto que apanhámos um escaldão nas costas, o deserto não perdoa os incautos, e tudo o que sobrará é uma névoa escura de um tubo de escape, um carro que faz uma inversão de marcha, um céu órfão de uma águia desaparecida, um sol deslocado, e uma estrada, tal como a vida, feita de curvas que se perderão no efeito tremeluzente de alcatrão escaldado.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Crónica de um Escritório

Escritório de mesas emparelhadas, relógio a dar o fim da transmissão, cérebros radiofónicos que labutam em frequência invariável, os colegas levantam-se em debandada, murmúrios monocórdicos
- até amanhã
murmúrios que nos assaltam aos ouvidos, pés que se arrastam, solas opacas, vestir o casaco
- até amanhã
casacos cinzentos em pessoas cinzentas
- até amanhã
gentes sem olhos boca nariz, gente coisificada, dispersa em massas indefinidas, arrastamentos de um tempo apático
- até amanhã
A nossa mesa só jarro e flor, pequena, alegre, vistosa, pequena flor, pequena planta que sorve água, bebericando, inundando-se, baptizando-se, renascendo-se em água, e um sol que acompanha a janela, movimento aparente, luz que se faz deslizar no tampo da mesa, a flor, pequena, vistosa, à luz, à sombra, duplo estado de completa existência, dado que olhamos o jarro e flor e sensação de harmonia, e quem nos vê
- até amanhã
supondo que alguém nos vê, conforme passam por nós, sem olhos boca nariz
- até amanhã
mas supondo que alguém nos vê, a nossa face rasgada em sombra, ininterrupta penumbra que nos turva a visão
(admite que turva a realidade para melhor aceitar a impotência que sente em tomar rédeas da sua vida)
uma retina ofuscada, sem brilho, toda uma negritude sem projecção para o porvir, e curvamos o olhar para o que resta do escritório de mesas emparelhadas e vazias, ecos de um relógio esgotado de sentido, e quando nos vemos sozinhos tiramos garrafa e copo da mala, e de trago em trago olhos que embaciam, e se a princípio medíamos a conta em dedos deixámos de o fazer para começar a entornar garrafas em copos cheios, e de trago em trago os olhos soluçam, e de trago em trago a garrafa vazia, de passos trocados prostramo-nos de joelhos, levantamo-nos, arrumamos copo e garrafa, o sol já era, a noite em potência, a noite que nos espera, mais garrafas, mais copos, fisgamos um último olhar ao jarro e à flor, olhar hesitante, olhos baços, olhos em cataratas ébrias, solas opacas, casaco cinzento, murmúrio gaguejado
- até amanhã

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Sr. Romeulloy II (Conto)

Sentei-me. Traseiras do Liceu. Na pista de atletismo virado para o campo de futebol. Estou concentrado em mim, somente em mim, embora o chilrear dos pássaros vão ficando mais nítidos e bonitos. Pego a minha mão do bolso, elevo-a com os canos de dedos à nuca e puxo o gatilho. Imaginário. Oiço um estoiro brutal. E concreto. Tons cinza e mancha vermelha. Sorrio. Fica silêncio e paz. A respiração volta ao normal. Não tenho arma. Se tivesse o gatilho seria concreto para mim. E o estoiro também. Nem pretendia ter a arma. Só sentir por momentos o poder de me poder estoirar acalmava-me para suportar a próxima aula.

Sentei-me. Sala de aula. Na minha cadeira da linha de montagem virado para a ardósia. Estou concentrado em mim, somente em mim, meu cérebro em sobre-reflexão é muito mais interessante e intenso que a aula. Concentrado em mim, somente em mim. O chilrear dos colegas ficando mais frívolos e hostis. Paredes e vozes em tons de sépia debruçam-se sob mim. Encho-me de ansiedade, engasgo-me tentando respirar. Aflito. Temendo que o toque da saída venha tarde demais. Pretendo a arma. Se não fosse tão preguiçoso arranjaria uma arma. Dizem que é fácil obter uma. Nada é fácil. Somente pensar, imaginar, reflectir. Sofrer. Numa palavra: frívolo. Tão frívolo quanto os meus colegas. É isso que é quem sofre concentrado somente em si. A linha de montagem cujo professor é adereço não ajuda. Ele desumanizou-se por dar aulas. Professor. Em contraste com o pó de giz na ardósia desenhava-se-lhe a silhueta e o casaco cor de sombra. Nem Pitágoras nem Camões nos alimentam de arte nos momentos em que se encosta os canos à nuca... e Rimmm rrrrimmmm rimmm e sou o primeiro a sair da sala de aula e a respirar liberdade.

Sentei-me no chão. Na rua. Só. E os meus amigos. Colegas. Emberbes. Chilreavam cada vez mais difusamente quando... Universo
Foi como
nada
tudo até
tão bonita
Ela
mais nada
foi como
tudo
mais nada
Era ela
mais nada
tudo ali
tão bela
só ela
Universo. Deixei de pensar e voltei a existir. Cor! Cores vivas! Sorriso vivo! Olhos castanhos avelã vivos como só nos dela vira antes. Pincelava os tons sépia em sua volta de todas as cores. E não interessava se era frívola. Enquanto ela se afastava da minha contemplação um rasto colorido deixava. A sua existência tão viva definia nitidamente, com a mais bela mistura de cores, a linha de montagem, desde a ardósia à minha primeira mais profunda solidão.

Sentado. Nas traseiras do que for. Os dias repetiam-se em ciclo quase nos mesmos tons. Aulas de claustrofobia. Intervalos com canos de dedos na nuca e ao fundo o mais belo trilho de cor. Assim sucessivamente.

Sentado. Na solidão. Sem nunca ter caminhado e transformado aquele rasto colorido num trilho que me deixasse em azul vivo mergulhado em castanho avelã. Preso. Entre o sonho e a vida. E nada foi tudo o que para sempre ficou. Além de uma perna que começou a ficar maior que a outra.

Link para Sr. Romeulloy

quinta-feira, 12 de junho de 2014

As Bestas do Passado

Quando a Lua Cheia se derrama na noite, uma coisa enorme, escura em tons esverdeados, debruçada no que parece ser um sono profundo, umas costas que se expandem como uma bolha para logo desincharem num corpo disforme, e escondidos no véu de erva alta, os nossos olhos espiam o inacreditável, e se o vento espirra frio na nossa nuca trememos violentamente, sem perceber se trememos pela temperatura ou pelo pavor dado que o lábio treme e num impulso mordemo-lo porque temos receio de fazer a pergunta e acocorados, os punhos fecham-se tanto que os nós dos dedos ficam brancos como blocos de gelo, e rasga-se uma ideia, ou o que se parece com uma ideia, dado que nesta ilha ou somos nós ou é a besta, e enquanto a consciência ganha corpo, na esquina dos nossos olhos, vemos Simão dobrado num choro e Maurício em debandada, é a constatação que neste confronto, homem e besta, estamos sozinhos, quase pelados, calções em tiras finas, pele gretada, cabelo enovelado em imundície, um facalhão manchado com sangue de bácaro selvagem, o reflexo da Lua na nossa retina é a sina da loucura que nos toma o juízo nem sei se são os teus olhos que se desviam ou se estás a pensar no nosso irmão dado que estamos à espera do avião e sentimos o lábio tremer e é-nos tão difícil reconhecer o dia em que nos despenhámos nesta ilha, sós, da inocência à barbárie num lapso de tempo, o suficiente para entender a fragilidade das nossas dependências
(quando puder desenvolva essa ideia da fragilidade das suas dependências ou por outro lado explique a fragilidade da sua independência)
conforme a roupa, camisa, calções, sapatos desfiados e inúteis, somos selvagens, carne crua, diarreia e grunhos, confrontados com o absurdo, homens e besta, e a coisa enorme que incha e desincha, todo um volume que dá sombra às árvores, e entre nós e a ilusão da sobrevivência, um facalhão pesado, preso ao que resta da indumentária, conforme estamos presos à solidão, entrecortada com os soluços de Simão e o rastejar fugidiço de Maurício, e é quando nos lembramos do dia em que nosso irmão morreu, e mais do que o morto o que nos reteve na memória foi os vivos que ficaram, como quando percebemos que o nosso pai já não nos olhava, dado que a morte enganou-se, trocou-lhe os filhos, o favorito foi-se e ficámos nós, e entre nós e a besta, a diferença atenua-se numa miséria da condição existencial
(a sua condição existencial é a descrença do valor que possui dado que continua a projectar nos outros a validade da sua existência)
e enquanto a Lua Cheia faz-se valer no dorso da besta, levantamo-nos do véu de erva alta, com o facalhão enterrado no chão, junto ao desamparado Simão, e seguimos passo a passo, sem peso, sem restolho, uma brisa que surge e abana as ramagens do arvoredo que nos envolve, levamos a mão ao cabelo comprido e puxamo-lo para trás, e nisto sentimos que a besta está envolvida num zumbido de milhares de moscas, moscas esverdeadas, varejeiras, enormes, um zumbido que estrilha os tímpanos, e a besta, o deus das moscas, de olhos enormes, dardos vermelho baço, sem luz, abertos, aguçados para nós, e nos nossos olhos ainda o reflexo selvagem da loucura, sentamo-nos a dois palmos da besta, de punhos fechados, sem tremuras no lábio.

Receámos perguntar-te mas dado que não nos dizes nada não nos surge outra coisa que não perguntar directamente o que não queríamos dizer
- pai preferias que eu tivesse dado a vida pelo teu outro filho?

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Sr. Romeulloy [conto – versão definitiva]


Tenho uma perna maior que a outra. Ou o chão é inclinado. Não sei. O tamanho da perna sei que não será exactamente igual à outra, mas será isso que me desequilibra para um lado? Talvez a ligeira vertigem lateral se deva a isso. No entanto estou de tronco inclinado para a frente, observo o chão de cima, olho os meus pés, e um estará mais abaixo e outro mais acima. O pé abaixo está mais abaixo em relação ao mais acima, o de cima está mais acima do que o que está mais abaixo. Assim parece. Excepto se for o chão que se inclina e, em vez de um desalinho, há antes um alinhar de alturas em relação a um referencial que não vislumbro. Isto de precisar de uma referência comparativa é limitador a uma análise. Em referência contra o chão escolheria um objecto recto, e contra os pés escolheria algo não recto. Talvez um pato, sem bico. Mas estará o chão torto? Terei os pés em bico? Ou será antes inclinado o referencial que nem vislumbrei ainda? Certo é que algo não está direito. E daí, não sei. Saberá alguém se é do chão, dos pés, das pernas, ou de outra existência mais? Será da coluna? Não sei se a tenho devidamente alinhada! Na minha idade, penso que não a terei. Mas estará a coluna dessa outra pessoa direita? Qualquer das causas pode ser a explicação para o desalinho vertiginoso enquanto olho o chão. Sinto. Um pé maior que o outro não desalinharia o chão. Qual seria a causa? Teria um deles podido desenvolver-se mais por desalinho do sapateiro tal como certos peixes que crescem proporcionalmente ao tamanho do aquário? É certo que não sei. E daí, talvez nem isso seja garantido. Ponho fora de possibilidade eu ter ao fundo das pernas dois peixes. Entenda-se: um ao fundo de cada perna. Não, eu não posso ter dois peixes em vez de pés, isso é certo, senão, à noite não conseguiria dormir com o cheiro. Enjoo. Virá daí a náusea que me revira o balanço? Olho o chão, olho melhor, e nada concluo. Danço! Não, estou parado. Incerto se danço ou se permaneço de pernas e tronco hirtos perfazendo um ângulo de noventa graus. Talvez sejam duzentos e setenta os graus. Não estou certo. Que terá entortado a coluna? A mochila da escola? Era pesada. Se calhar nem era. Mudava periodicamente de ombro para as torções na espinha se equilibrarem ao final do ano lectivo. Mas não estou certo de ter distribuído justamente o peso. E agora que o sinto, lembro que tenho um testículo maior que o outro. É o direito. A mochila terá sido repartida pelos ombros tendo em conta a relação entre testículos? Não, não foi. Nem me lembro se foi. E agora não sei qual dos testículos é o maior. É o esquerdo. Não sei. Confirmaria com a devida apalpação, mas desequilibrar-me-ia. Não é que eu saiba onde tenho as mãos, mas sei que me revelaria ao chão. Ao menos se rebolasse ficaria a saber que ele é inclinado. Mas, pensando bem, nada mais tomaria conhecimento quanto aos meus pés, pernas, coluna, ou, já não me lembro das outras possíveis variáveis às vertigens. Lembrei! Lembrei! Era os pés, as pernas e a coluna. Lembrei! Contudo, estou certo que ando esquecido. Qual era o ponto de partida de tudo isto? Ajudar-me-ia sabê-lo?! Recordo então que foi, salvo erro, eu não conseguir dormir com peixes nos pés. Se é que não sonhei com isto. Não sei. De erros ninguém está a salvo. Certo é que tenho um testículo maior que o outro em relação a um referencial que não vislumbro. Mas com o chão inclinado como está, nada conseguirei vislumbrar. Um pé maior que uma sapateira, acho que falei em sapateira. Ou terá sido antes em sapateiro? Com isto tudo perdi-me da minha namorada. Tenho namorada? Será aquela ali? É ela! Não sei. Se calhar preciso dela como de uma bengala. Não tenho pernas, penso. Isso explica muita coisa. Onde está a minha namorada quando preciso dela? Preciso, se ela for direita. Se for torta não será um bom referencial. Ou então não o é se for direita. É importante um referencial para o próprio referencial. Ou bastará fixar um qualquer? Acho que tenho um pé maior que o outro. E daí, não sei. Mas preciso dela, da minha namorada. Se é que tenho uma. Quero-a, mesmo que não tenha nenhuma. Preciso dela. Serei viúvo? Se calhar a viúva é ela. Mas preciso da minha enamorada. Usá-la-ei como calço.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Sinfonia de Chuviscos em Parapeito de Primavera


É como se na alegria chovesse tristeza, e é desta forma que contemplamos o parapeito da janela em manhã de chuva, de gotícula em gotícula uma valsa de moléculas aos pulos, uma sinfonia de gotejamento oferecida aos vãos enquanto fazemos a barba cantarolando tchaikovsky, convencendo-nos que cantando, assobiando, trauteando, expurgamos a infelicidade projectando esperança que o dia de hoje tem tudo para correr bem, e distraídos, com mãos desarranjadas, um golpe no pescoço
(e estaria mesmo distraído)
gotícula em gotícula sujar o lavatório de sangue, primeiro uma coisa fina e depois, progressivamente, uma coisa volumada, densa, a caminho de um rio, todo um lavatório a transbordar e um chão com tonalidades avermelhadas e são os nossos pés que se afogam no nosso sangue, como quando dormimos e sonhamos com mundos fantasiosos, uma alegria de existência, um hino ao prazer, e se alguém se debruçar sobre nós constata um ligeiro sorriso de quem está feliz, mas como em qualquer história bem contada há uma variação brusca, um revezar de condições, um salto, um tropeçar, um cadafalso, invadem-nos as ausências e experimentamos o terror dos pesadelos esquecidos, acordamos em sobressalto, ofegantes, transpirados, as pupilas em explosão, e o que dizer das nossas mãos, apertadas, punhos cerrados, compressão total, com pressão total, a cabeça a mil à hora e a cabeça a mil à nora, deslocados da razão num desespero enorme, e se voltamos à almofada enrolamo-nos como crianças em convulsão
fecha os olhos e não sonhes não sonhes é só fechar os olhos e não sonhar e por favor não sonhes é só mesmo fechar os olhos e o tempo correr sem sonhar e depois acordar como se nada tivesse acontecido
(amedrontar-se com pesadelos e depois não quer sonhar e não se admire quando afirma que não se consegue ver no futuro)
enrolamo-nos mais e mais, conforme em criança quando jogávamos à bola e se nos pregavam uma rasteira, sem nos tocar, mergulhávamos no chão, enrolados, agarrados ao joelho direito e depois agarrados ao joelho esquerdo, e com tanto teatro esquecemos o joelho, enrolamo-nos cada vez mais e é como se aquela rasteira inexistente fosse a materialização da violência dos dias comuns, e quando os colegas de equipa e os adversários nos rodeiam, enquanto estes acham que é tudo fingimento e aqueles acham que foi uma entrada assassina, fica só um agrupamento de olhos que nos perscrutem, tal como nos sonhos as ausências surgem e nos perscrutem, ensombrando as fantasias num terror de pesadelo, e tudo se resume a íris e pupilas e silêncio, dado que tentamos expulsar palavras da boca e nada conseguimos, uma vez que temos uma pedra, não na bexiga mas nas cordas vocais
(não terá uma pedra na cabeça)
e naquele esforço último conseguimos sonorizar qualquer coisa que não palavras, qualquer coisa como um guincho naquele sábado de manhã, já o vizinho pendurava o porco de pernas para o ar, e tudo o que havia no ar era uma atmosfera difusa, dado que nos assaltava ao espírito uma empatia com o animal, e desconsiderando afeições com suínos o vizinho amolava a faca de corte, e da memória já só nos resta o golpe, os guinchos de que nos arreliam os pêlos da nuca e o gotejar vermelho na terra com papel higiénico a estancar o sangue que jorrava do pescoço, uma lâmina de barbear com tons escarlate, e de pingo em pingo uma valsa no parapeito da janela, enquanto chove torrencialmente numa manhã de primavera, e percebemos que há inutilidade na esperança, a meio caminho de aceitarmos a inevitabilidade do absurdo, porque é como se na alegria chovesse tristeza.

Imagem retirada daqui

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Uma Cabeça em Carrossel com Sabor a Vinho

E se os corredores nos devorarem o apelo à vida, enquanto serpenteiam, entrecruzando-se labirinticamente, conforme as noites que se deitam sobre nós numa mancha oca, dado que as sombras não pesam mas manifestam-se, como quando desenrolamos a cabeça em ideias, ou espectros de ideias, e olhamos a rua pelos rectângulos dos estores, e se escrevemos olhamos é abuso, posto que os olhos enevoados, envoltos numa cegueira de quem está distraído
(distrai-se pela periferia sem atacar o problema de frente)
e puxamos cigarro após cigarro, copo após copo, lembrança após lembrança, e cansados dos rectângulos dos estores, mais ébrios do que era expectável, avançamos com os pés desorientados e com as mãos encostadas à parede rumo à cama com lençóis revoltados, juramos que não nos caem lágrimas
(recusa assumir que o seu corpo lhe dá sinais porque quer recusar a resposta óbvia às suas dúvidas da mesma forma que escreve e escreve e escreve e depois perde-se irremediavelmente em disparates e em alegorias insípidas e inúteis e já reparou que nunca responde como se o contraditório fosse ruído de fundo)
e juramos que as lágrimas são não lágrimas, da mesma forma que os pés não estão trocados, visto que foram alguns copos que se entornaram no nosso estômago, conforme andamos com pernas hesitantes sem fugir ao encosto da parede e na vertigem da cama deixamo-nos cair de costas, e dá-nos vontade de perguntar que carrossel é este uma vez que a cama gira sem parar, e não conseguimos assentar o olhar nem as ideias, contudo nada disso nos importa, há pouco estivemos envoltos numa cegueira de quem está distraído, agora estamos envoltos numa confusão de quem se sente absurdo, e puxamos cigarro após cigarro, copo após copo, enquanto a cama se revolta em rodopios e nós nos agarramos aos lençóis com medo de sairmos lançados pela janela fora, e num esforço enérgico endireitamo-nos, sentados, na esquina da cama, de cotovelos nas pernas e com as mãos que seguram uma cabeça que rola em todos os sentidos, mas que puta de carrossel é este
(é o carrossel que faz da vida e como não consegue parar fica impossível de ver as coisas como elas são)
e há este zumbir distante que se faz notar cada vez mais, dado que o telemóvel está a dar sinais de vida, e se sondamos o bolso esquerdo das calças é engano, e a nossa experiência do absurdo é isto, falhamos sempre à primeira e quando vamos ao segundo já o fazemos em desespero, e do telemóvel um balbuciar de palavras desconexas e uma sensação do que há confirmação do que se estava à espera
(tudo o que faz é confirmar passivamente o que estava à espera sem perceber que estava à espera das confirmações que lá no fundo sempre desejou)
e amanhã já sabemos que o hospital nos espera, e vagueando de pernas trocadas, camisa desapertada e braguilha aberta, confirmaremos em papel e assinatura um óbito e um início de processo, e de pé para pé, solas escorregadias em permanente carrossel, iremos serpentear, entrecruzando labirinticamente, os corredores que nos devoram o apelo à vida.

terça-feira, 13 de maio de 2014

História dos Homens Comuns em Fluxo

Quando o verão emerge violento, ficamos cegos e desvairados enquanto apalpamos o calcário do chão, como quando calcorreamos as casas da noite, a jeito para que sejamos confundidos por um james dean prostibulário
(james dean prostibulário é um alter ego seu?)
e se dermos ao olfacto a sua oportunidade, exalamos a testa húmida, a cigarro mole, a vontade de mijar às portas, e do nevoeiro com sabor a nicotina e a cerveja morta manifestava-se o chilro saxofonista dos pássaros, cegos e desvairados, acelerados pela comoção, um sapato cadenciado, meter os pés nas algibeiras
(está sempre a meter os pés pelas mãos)
- dá-lhe charlie dá-lhe
vapores tertulianos que emanam da nossa cabeça, enquanto o sol enrijece as crostas cutâneas de quem vagueia nos labirintos de calçada, magote de gentes frouxa com solas lânguidas, arrasto de movimento em aguarela borrada, e à nossa frente um copo de amêndoa amarga que bamboleia ao ritmo do tamborilar dos nossos dedos no tampo da mesa
- dá-lhe charlie dá-lhe
e não cabemos de êxtase quando o ruído orgásmico subleva a rigidez melódica, e com a boca
- pam pam pam pam
e com as palmas
- dá-lhe charlie dá-lhe
e uma voz que foge da penumbra
- porra charlie és o maior
São dias em que tudo se pega ao corpo, e com a cabeça mergulhamos as ideias em blocos de gelo
(acha que a cabeça lhe ferve e depois sente que precisa de arrefecer quando nem começou a aquecer)
enlouquecem-nos a lubricidade das carnes expostas, despeitoradas aquosas que revelam arcos e dobras e sonhos, e uma gota de suor que desliza na vertigem do peito feminino, e quando queremos dissuadir os olhos o nosso corpo um não corpo mas sim um autómato, não responde à razão da mesma forma que os pés, os dedos, a cabeça baqueteiam a cadência musical soprada pelo tumulto dissonante 
- dá-lhe charlie dá-lhe
autómato broto da égide solar de olhos concentrados na incandescência das peles bronzeadas, sabor a lascívia salgada na confusão dos lençóis, garrafas de vinho na balbúrdia do quarto
- pam pam pam pam
(desvaloriza o sexo porque não acredita na troca qualitativa entre seres humanos)
e corpos que se misturam em combustão como o verão emerge violento, e a camisa colada ao corpo porque derretemo-nos neste abuso de sobrevivência
- pam pam pam pam
mas quando acordamos, ao nosso lado costas despidas que não conhecemos, e parece que nos vai cair a cabeça, um turbilhão de recordações entrecortadas que não se cosem num sentido cronológico de eventos, e nos recantos absurdos do crânio
- pam pam pam pam
(essas suas dores de cabeça são consequência das horas que não dorme)
surge-nos uma vaga ideia
- dá-lhe charlie dá-lhe
até voltarmos ao labirinto de calcário, sob um sol pungente e insensível, rumo ao contra-senso das responsabilidades diurnos, mas sem nunca evitar um james dean prostibulário que renasce das cálidas noites, autómato alimentado a pássaros saxofonistas e a seios húmidos, um devasso de costas despidas e de copos gingões, um exemplar da história dos homens comuns em fluxo.

[1] sonorização musical como fonte para escrita aqui
Imagem retirada daqui

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Dar Pardais às Raízes do Sobreiro

E se a memória fosse gomos que se mastigam, umas mais doces outras mais ácidas, um caroço pelo meio, muitos caroços pelo meio, afinal todo ele um caroço
(parece que em vez de cabeça tem um caroço e depois não consegue elaborar um raciocínio do princípio ao fim)
dado que mastigamos a memória e esta não digere, faz-se uma papa insonsa de cronologia duvidosa e depois já nem sabemos se havemos de engolir ou cuspir fora, ficamos com a papa na boca à espera de uma decisão, ou à espera que nos engasguemos 
(sempre passivo sem perceber que já se engasgou há imenso tempo)
como quando ficamos a ver o alentejo como quem fica a ver uma novela, dado que há romance entre a aridez da terra e o sol dos desertos, são narrativas de amor difícil que se alimentam de avanços e retrocessos e no fim já sabemos que estarão inevitavelmente juntos, e se bocejamos de enfado, porque a história é sempre a mesma, encostamo-nos ao sobreiro e lemos agatha christie, que a história, apesar de sempre a mesma, vai-nos ocupando a melancolia, e é nestas distracções que nos desviamos do aborrecimento e nos debruçamos numa cria de pardal, desamparada e estúpida, que no impulso de sobrevivência enche o peito de ar para expirar um berreiro de respeito
(ao contrário de si que em vez de expirar anda a inspirar berreiros de socorro)
e dado que a mãe pardal anda distraída nos seus afazeres, e assumindo que o pai pardal é um apoucado mental, resta que nós, os debruçados, elevemos o constrangimento de adolescente ao altruísmo de quem assume a responsabilidade das suas acções, e analisando o contexto onde se encontra a cria de pardal que, caída de um qualquer ramo de sobreiro, está inteiramente dependente da boa vontade alheia, e dado que nos pareceu faminta, achámos que seria nosso dever dar provimento alimentício à base de côdea de pão, porém, e admitindo que ficámos surpreendidos, a cria de pardal engasgou-se, e é nossa obrigação assumir que a surpresa foi relativa visto que dar côdea a pardalitos foi como condená-la a uma medonha morte por engasgamento
(já só faltava recriar-se como um assassino consciente)
e em desespero, com uma cria de pardal nas mãos, numa agoniante morte por sufocamento, apertamo-la na palma da mão até os pequenos olhos incharem, e apertando mais um bocado já não tínhamos uma cria de pardal morta por se ter engasgado, tínhamos uma cria de pardal esmagada por compaixão suspeitosa, e para finalizar toda esta obra de benevolência, enterrá-mo-la junto ao sobreiro, porém devemos declarar que o enterro não se fez com intuitos cristãos, ou nada que se lhe pareça, pois fizemo-lo porque a vergonha nos assaltou o espírito e enterrando os indícios do crime seria o melhor caminho para cobrir a culpa, contudo a memória é como os gomos que se mastigam, demasiado caroço em papa insonsa, e já nem sabemos se havemos de engolir ou de cuspir, mastigamos e mastigamos até que a cria de pardal nos engasgue a consciência.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Sr. João [conto?]

O senhor João ultrapassou-me a passo rápido quando me falou. Olá Bruno, vou apanhar o comboio senão chego demasiado tarde. Nunca o vira a andar tão depressa. Nem quando o via quase diariamente a encaminhar-se até às putas do Cais Sodré que por uns tempos lhe foderam as poupanças de uma vida. O comboio quase a chegar. A sua respiração estava ofegante mas não era do ritmo da passada.

... A minha mulher desta vez não se safa!

Travou o passo. O sr. João nunca antes fizera conversa comigo tão prolongadamente. A sua necessidade de falar com alguém era tão grande que se arriscou a perder o último comboio até ao último folgo de sua mulher. A minha passada é larga e rápida, mas senti que não era suficiente. Ele seguia a pouco mais de meio metro de mim. Para trás olhava-me enquanto falava. Pedia por reciprocidade no meu olhar. O comboio já deveria ter passado e nós ainda longe. Acelerei, temendo que fosse em demasia, que a velocidade desarticulasse a curta passada do sr. João até ao chão, e que ainda fosse vê-lo a levantar-se em lágrimas por uma mulher que há muitos anos se saturara e lhe era insuportável.

... Ela ontem sentiu-se mal. As visitas são agora até às 13h00.

Nunca vi o sr. João caminhando lado a lado com a mulher. Fugia à frente dela. Distância de muitos metros. Sempre. Mas nunca numa passada tão rápida como a desta passada que vos conto. Era uma passada sôfrega, não pelo ritmo, mas pela emoção de uma última vez. Atenção sr. João que acho que o comboio já deveria ter chegado. Mas ele continuou a pouco mais de meio metro de mim. Ao meu ritmo. Meio a fugir. Meio a ficar. Distância bem mais tolerante que a que tinha à sua mulher.

... A minha mulher desta vez não se safa!

Felizmente que os comboios na Linha de Cascais avariam com frequência e uns tantos chegam atrasados. O sr. João chegou a tempo. Despedi-me sem lhe dar esperanças. Eu sabia que ela desta vez ia morrer.

Dias depois cruzo-me com o sr. João em ritmo que lhe é o normal. Falou-me sem travar o passo. Cumprimentou-me, apenas isso. Metros mais à frente surge-me a mulher do sr. João. Fiquei admirado. Perguntou-me coisas. Ela sempre perguntava coisas. Muito coscuvilheira. Por isso toda a vida fugi dela. Desta vez respondi. A um morto nada se recusa.

A idade deles é incerta. O desgaste que a fábrica lhes causara não me permite determina-la. Já não sou do tempo em que havia indústria junto à Linha de Cascais. Ou se calhar fui. O sr. João e a mulher só se reformaram anos depois de ela ter partido a perna no trabalho. Lembro-me disso. Talvez tenham recebido uma indemnização aquando do fecho da fábrica. Se calhar foi esse o dinheiro das poupanças que o sr. João fodeu nos braços do Cais Sodré.

Morreu ontem à tarde depois do almoço. Matou-se ao ir zonza com a cabeça a uma esquina por causa da quimioterapia. Os músculos contorceram-lhe o corpo. O sr. João agarrou-a e abraçou-a. Telefonou para o filho. Para a filha. Mas o dia que parecia igual a qualquer outro foi mais rápido que ambos e quando chegaram a mãe passara a ser uma carcaça fria. O sr. João, desesperado. A mulher pela primeira vez fugiu-lhe à frente. E não perguntou nada.

O velório foi hoje. O sr. João, desesperado. Em breve haverá outro. Desta vez é ele que não se safa. Pela primeira vez a sua mulher lhe fugiu à frente. E ele acelerou o passo. Os filhos ainda não perceberam. Vão voltar a chegar tarde. Mãe e Pai. Carcaças. Já só há tarde demais. Os corpos dos pais há muito que já estão frios.

domingo, 4 de maio de 2014

Decreto Exposto em Diário da Existência

Quando sentimos que estamos expulsos do tempo, é como escrever que nos sentimos desenquadrados de tudo o que nos rodeia
(porque se sente desenquadrado de si mesmo)
da mesma forma que olhamos para nós e sentimos que estamos do lado de fora, sem perceber se pertencemos ao passado ou ao futuro, mas garantidamente falaste-me em língua estrangeira e eu anuí para não me dar ao trabalho de te ouvir outra vez mas garantidamente que não pertencemos ao tempo de hoje, dito de outra forma, é como quando estivemos nas celebrações do carmo com aquele arrozal de gentes e sentimos as nossas ideias a ensoparem-se no desespero, e depois em surdina
- o que é que estamos aqui a fazer
fugimos à procura de cerveja barata, numa vã tentativa de nos recuperarmos, qual máquina do tempo, para convergir num tempo que nos devolva a vontade de comemorar datas, ou momentos, e quando escrevemos comemorar queremos dizer rememorar datas, ou momentos, mas é uma vã tentativa de é impossível voltar a entender quem declaradamente me abandonou e desculpar-te seria assumir a irrecuperabilidade da minha culpa e tu dizes-me mas eu não sabia da doença e eu respondo não sabias porque quiseste olhar para o lado como quem desvia os pés da merda de cão que está no chão
(sente-se como merda de cão e depois não foge dessa depreciação que faz de si mesmo não admira que ache impossível que os outros o possam valorizar)
mas é uma vã tentativa de nos recuperarmos porque aquela multidão pequena-burguesa - ou grande-burgessa - sufoca-nos aquela réstia de esperança
(qual esperança quando se acredita no absurdismo)
e se estivemos no carmo foi engano, como um álbum de fotografias é engano e quando nos agarramos à nostalgia é porque deixámos de esperar pelo futuro, e nem com toda aquela cerveja podíamos afogar este frenesim de cinismo que se agarra a nós como carraças sanguessugas vampiros chupadores de honestidade dizes-me mas as coisas já não estavam bem entre nós mas todo este cinismo é uma manobra de sobrevivência conforme nós assumimos que estamos perdidos nesta coisa confusa a que chamam vida, e à noite olhamos ao espelho e perguntamos
- o que é que estamos aqui a fazer
se somos homens do passado ou do futuro, porque do presente não somos, porque sentimos este desenquadramento, e não se trata de acomodação ou preguiça ou, no limite, um desajustamento social por incapacidade psicológica nossa
(diz que não mas às vezes parece que diz que sim)
e recordamo-nos que fomos convidados a tocar música num estúdio e em cinco minutos de experiência puxámos do cigarro
- o que é que estamos aqui a fazer
e fomos embora, dado que falamos línguas diferentes, só pode, visto que falam baboseira e nós juramos que não percebemos respondo-te que quem tanto aceitou tem sempre a opção de dizer que não obrigado visto que quem dá expõe-se e que quem recebe escolhe e o melhor é ficarmos por aqui dado que teria de explicar o enraizar da filosofia do consumo da mesma forma que juramos que não percebemos as comemorações no carmo, porque soubemos, por decreto exposto em diário da existência, que fomos expulsos do tempo.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Esplanada ao Vento

E é como estarmos numa esplanada e um vento que amotina o arranjo das mesas, da mesma forma que as noites agitam as ideias e os sonhos dão lugar aos pesadelos portanto as insónias são como ilhargas dos loucos sabor de lírios no canto do espírito e aquele apêndice do cigarro que não acerta no cinzeiro porque o cinzeiro de lá para cá conforme a mesa que de lá para cá se move aos abanões, e se esticamos o braço para agarrar a volubilidade das coisas, é como grãos de areia que escorregam nos interstícios das mãos
(e não há nada que consiga manter na palma?)
E é como estarmos numa esplanada e os pombos, irreverentes, procuram sobras esfareladas, consoante os vazios da vida perscrutam na memória sobejos da infância com aquele desespero de quem tudo jogou na roleta, e quando metemos aquelas últimas moedas a apostar tudo no vermelho vemos, num fragmento de tempo, todo um futuro pintado de esperança, e noutro fragmento de tempo olhos que reflectem noutros olhos da mesma forma que as ausências são espelhos do nosso abandono, visto que e noutro fragmento de tempo há aquele aperto no peito
- queres ver que fiz merda
e a bolinha branca às voltas na roda, lembrando-nos o dia em que ficámos a ver a jante do carro que luzia memória dos verões adolescentes, e tudo começou numa brincadeira de miúdos, um empurrão
- queres ver que fiz merda
E é como estarmos numa esplanada e saborearmos aquele silêncio que não precisa de diálogos, da mesma maneira que quando a roleta gira só se ouve aquele respirar suspenso, ou por outras palavras, a roleta gira sem que nada se consiga ouvir
(nada ouve porque nada quer ouvir)
Quando a jante deixou de girar, um baque que nos ecoa nas lembranças e uma mancha vermelha no pára-choques e quando as lágrimas se vestem de preto nos intervalos das inscrições em mármores, ficamos como que impelidos a regredir no silêncio e na culpa da mesma cor que o vermelho da aposta, e a bolinha branca às voltas na roda até começar a saltitar sobre os números, como quando o coração começa a saltitar na esplanada porque levámos as nossas mãos ao encontro do toque
- queres ver que fiz merda
E é quando a ansiedade toma conta do nosso juízo e percebemos que temos a boca seca
(a sua depressão deixa-o com a boca seca)
E todo aquele verão maculado com o funeral, e quem nos dera afirmar, com a certeza absoluta, que foi só aquele verão maculado, porque a nossa convicção é acreditar que foi uma vida inteira maculada com o funeral, e tudo o que nós trouxemos na memória resume-se a lágrimas de mãe e um vaso de lírios sobre a campa, da mesma forma que sobrou da roleta uma negritude que nos levou a esperança, conforme a solidão que nos ocupou a esplanada, como quando fechamos o punho, grãos de areia escorregam pelos interstícios das nossas mãos.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Vozes do Escuro

E quando as vozes do escuro se calam e nós nos perdemos na solidão, conforme as noites enganam as horas e o vento nos cobre com um manto frio, como aquelas sombras fugazes que quebram a luz dos candeeiros e quando olhamos para trás, apavorados, constatamos o nada, um pânico que nos eriça os nervos, e juramos  por tudo que o medo não nos atinge, e é uma mentira grossa porque o estômago nos constrange e a nossa mão tremeleia, consoante os dedos que tacteiam uma coxa, uma perna, um seio, e pele com pele fazemos o amor, até a ausência se esfumar enquanto abraçamos a inexistência
(já pensou que a inexistência sempre esteve lá)
e o que separa o antes do depois é a ilusão da possibilidade, mesmo quando desenvolvemos a noção do ridículo contentamo-nos com as nossas quimeras, e permitimo-nos alimentar a alucinação, desde que a miséria da solidão esteja sonegada no esquecimento, contudo a realidade emerge-nos com a violência da vida e o chão rompe-se num cataclismo que nos engole e que nos atira para o escuro
(admite que é escuro porque não contempla o real)
e é quando dialogamos com os átomos que tudo se desvenda no absurdo, na relação da frivolidade quotidiana com o caos da nossa experiência vivida, e depois o que sobra senão esta espécie de autismo que se desenvolve dentro de nós, como daquelas vez que nos fizeram uma radiografia ao corpo e os técnicos boquiabertos, uma raiz negra ramificada entre o aperto do peito, e quando desapertamos os dentes um tronco ergue-se da boca para fora e abre-se numa esplêndida ramagem, toda ela preta, com uns pequenos frutos escuros, e umas flores escuras, e é quando nos percebemos que estamos podres por dentro
(mas podre está a visão que tem de si mesmo)
da mesma forma que quando falamos com outras gentes temos receio de os contagiar, e não é receio porque juramos por tudo que o medo não nos atinge, mas é aquela consciência imediata que queremos guardar as nossas depressões para nós próprios, como quando fumamos desviamos o fumo dos que nos rodeiam, porque crescemos com a responsabilidade de não encharcar o mundo com o nosso absurdo, condenados a carregar as nossas comiserações até a noite enganar as horas e nos cobrir com um manto frio, e se vagueamos na rua deparamo-nos com uma sombra projectada ao nosso lado, e olhamos para trás horrorizados para confirmar o nada, com o coração a deslocar-se num iminente enfarte
(e não se admire se um dia o seu corpo não resistir)
porque todos temos limites, e continuar esta sofrida solidão, mesmo que pontualmente esquecida porque achamos que estamos acompanhados, só nos trará a antecipação da inevitabilidade, e depois caímos no desespero do arrependimento que se traduzirá no silenciar das vozes do escuro. 

sábado, 26 de abril de 2014

Saraivadas ao Destino

E quando tudo nos aperta e sentimos que não se consegue respirar, perguntamo-nos se é desta, da mesma forma que na rua se viam soldados em todas as esquinas de espingarda ao ombro, e entre nós olhares com coração à boca, com aquela ansiedade que é metade terror e metade esperança, e por pouco um chaimite nos atropelava, tal a urgência com que tudo acontecia, como quando as ausências nos atropelam e nós com pressa, e o tempo sem pressa, às vezes parado como fotografia estática de aniversário, ou baptismo, ou casamento, tudo parado de sorriso postiço nos lábios, e nós com pressa para que tudo seja reposto à normalidade, ou qualquer coisa parecida à normalidade mas para melhor, uma normalidade melhorada, mas o tempo ainda parado, e se o chaimite quase nos atropelava é equívoco nosso, o chaimite parado, os soldados parados em todas as esquinas, e perguntamo-nos se é desta, levando as mãos ao pescoço, tal é a dificuldade em respirar quando algo nos constrange o peito, e como não sai, prostramo-nos de joelhos e de mãos no pescoço fazendo aquele esforço para sorver um naco de oxigénio, mas para quê o esforço, acreditamos por momentos que o melhor é deixar estar, estendermos os braços ao chão e abandonarmo-nos ao destino, conforme salgueiro berrava para dispararem, os soldados parados em todas as esquinas, e os chaimites parados naquela vertigem de quase atropelo, e sejamos francos, a coragem não sai porque andamos de cu apertado, até que
-passa-me cá essa merda
saraivada de estrilho no carmo, e se está tudo estático é porque os nossos olhos nos mentem, porque
-passa-me cá essa merda
saraivada ao silêncio, e é como se algo tivesse saltado da boca para fora e a gente pudesse respirar, como quando todos nos erguemos do chão e fomos ao carmo saraivar toda esta opressão, toda esta tirania que nos subjuga o direito à vida, e quando tudo nos aperta e sentimos que não se consegue respirar
-passa-me cá essa merda
metralhar as paredes do carmo até fazer saltar a opressão da boca para fora, até nos erguermos e assumirmos que basta, até percebermos que os olhos nos mentem e que nada está parado, está tudo em movimento, está tudo preparado para saraivadas ao destino.