Mostrar mensagens com a etiqueta Intersubjectividade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Intersubjectividade. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Sr. Romeulloy [conto – versão definitiva]


Tenho uma perna maior que a outra. Ou o chão é inclinado. Não sei. O tamanho da perna sei que não será exactamente igual à outra, mas será isso que me desequilibra para um lado? Talvez a ligeira vertigem lateral se deva a isso. No entanto estou de tronco inclinado para a frente, observo o chão de cima, olho os meus pés, e um estará mais abaixo e outro mais acima. O pé abaixo está mais abaixo em relação ao mais acima, o de cima está mais acima do que o que está mais abaixo. Assim parece. Excepto se for o chão que se inclina e, em vez de um desalinho, há antes um alinhar de alturas em relação a um referencial que não vislumbro. Isto de precisar de uma referência comparativa é limitador a uma análise. Em referência contra o chão escolheria um objecto recto, e contra os pés escolheria algo não recto. Talvez um pato, sem bico. Mas estará o chão torto? Terei os pés em bico? Ou será antes inclinado o referencial que nem vislumbrei ainda? Certo é que algo não está direito. E daí, não sei. Saberá alguém se é do chão, dos pés, das pernas, ou de outra existência mais? Será da coluna? Não sei se a tenho devidamente alinhada! Na minha idade, penso que não a terei. Mas estará a coluna dessa outra pessoa direita? Qualquer das causas pode ser a explicação para o desalinho vertiginoso enquanto olho o chão. Sinto. Um pé maior que o outro não desalinharia o chão. Qual seria a causa? Teria um deles podido desenvolver-se mais por desalinho do sapateiro tal como certos peixes que crescem proporcionalmente ao tamanho do aquário? É certo que não sei. E daí, talvez nem isso seja garantido. Ponho fora de possibilidade eu ter ao fundo das pernas dois peixes. Entenda-se: um ao fundo de cada perna. Não, eu não posso ter dois peixes em vez de pés, isso é certo, senão, à noite não conseguiria dormir com o cheiro. Enjoo. Virá daí a náusea que me revira o balanço? Olho o chão, olho melhor, e nada concluo. Danço! Não, estou parado. Incerto se danço ou se permaneço de pernas e tronco hirtos perfazendo um ângulo de noventa graus. Talvez sejam duzentos e setenta os graus. Não estou certo. Que terá entortado a coluna? A mochila da escola? Era pesada. Se calhar nem era. Mudava periodicamente de ombro para as torções na espinha se equilibrarem ao final do ano lectivo. Mas não estou certo de ter distribuído justamente o peso. E agora que o sinto, lembro que tenho um testículo maior que o outro. É o direito. A mochila terá sido repartida pelos ombros tendo em conta a relação entre testículos? Não, não foi. Nem me lembro se foi. E agora não sei qual dos testículos é o maior. É o esquerdo. Não sei. Confirmaria com a devida apalpação, mas desequilibrar-me-ia. Não é que eu saiba onde tenho as mãos, mas sei que me revelaria ao chão. Ao menos se rebolasse ficaria a saber que ele é inclinado. Mas, pensando bem, nada mais tomaria conhecimento quanto aos meus pés, pernas, coluna, ou, já não me lembro das outras possíveis variáveis às vertigens. Lembrei! Lembrei! Era os pés, as pernas e a coluna. Lembrei! Contudo, estou certo que ando esquecido. Qual era o ponto de partida de tudo isto? Ajudar-me-ia sabê-lo?! Recordo então que foi, salvo erro, eu não conseguir dormir com peixes nos pés. Se é que não sonhei com isto. Não sei. De erros ninguém está a salvo. Certo é que tenho um testículo maior que o outro em relação a um referencial que não vislumbro. Mas com o chão inclinado como está, nada conseguirei vislumbrar. Um pé maior que uma sapateira, acho que falei em sapateira. Ou terá sido antes em sapateiro? Com isto tudo perdi-me da minha namorada. Tenho namorada? Será aquela ali? É ela! Não sei. Se calhar preciso dela como de uma bengala. Não tenho pernas, penso. Isso explica muita coisa. Onde está a minha namorada quando preciso dela? Preciso, se ela for direita. Se for torta não será um bom referencial. Ou então não o é se for direita. É importante um referencial para o próprio referencial. Ou bastará fixar um qualquer? Acho que tenho um pé maior que o outro. E daí, não sei. Mas preciso dela, da minha namorada. Se é que tenho uma. Quero-a, mesmo que não tenha nenhuma. Preciso dela. Serei viúvo? Se calhar a viúva é ela. Mas preciso da minha enamorada. Usá-la-ei como calço.

domingo, 16 de março de 2014

e Tu & Eu [conto]

Eu sou eu, e não outro. Estou aqui, não acolá. É estranho! Podia ser aquele no entanto sou eu. Comprimo a língua contra o céu da boca. Sinto. Confirmo, estou aqui, em mim. Sou eu em mim, e não noutro, acolá. Ele tem um eu dele. É estranho, mas estou aqui em mim. Comprimo a língua no céu da boca e realmente sou eu.

E se estive eu antes noutro? Se fosse aquele? Um outro estaria em mim. Como foi que eu ao nascer cresci em mim e não naquele?! Seria provavelmente melhor. Ser aquele outro deverá ser melhor que ser eu. No entanto, ele tem quase setenta anos. Não, ele tem quase oitenta anos. Tem a morte mais próxima que no meu caso. Que alívio seria morrer! No entanto, observo-o, e quanto mais perto da morte, mais ele tem pena de ter de morrer. Mas será mesmo assim? Aqui - em mim - até que vou gostando de estar vivo, mas preferia talvez ser um outro. Ter cerca de setenta anos deve intensificar o prazer de viver. Ou talvez o desprazer. Se pudesse por uns segundos eu ficar nele, saber como é ser ele e voltar de seguida a mim, ficaria a saber. Posso sempre desconfiar e tentar responder-me - em mim - a partir dos outros: tanto o negro como o mais brilhante da vida se intensificam com o aproximar da morte. Ou não, e a morte seja até ao último suspiro uma abstracção. Jamais saberei, pois em mim sempre estarei-serei.

E aquela rapariga além. Alta, morena, olhos verdes, bonita de sorriso fácil de voz e palavras doces. Como deve ser maravilhoso ser-se ela! Como será ser ela? Estar nela? Não sei se devo usar o verbo ser ou estar. Mas nunca fui bom a optar à primeira pelas palavras mais adequadas. Menos ainda perante uma bela mulher. Nova tentativa: como será ser ela? Ser nela? Estar no ser dela? Não está a melhorar. Problemas de expressão. Se por uns segundos pudesse ser nela, que sentiria e pensaria? Que desejará ela? Que vazios terá por preencher? Que falta lhe falta a ela? Se calhar é algo que não me falta a mim. Ninguém saberá se o peso que ela transporta será pior que o meu. Diria talvez, se realmente encontrei as palavras adequadas: Ninguém saberá se o peso que ela é não está pior que o meu. Peso de vazio. Em mim, isto é, dentro de mim, nada mais pesa que o vácuo. Mas e ela? Provavelmente o peso da falta que lhe falta seja completamente desconhecido do meu mundo, do eu que sou e está em mim a comprimir a língua no céu da boca. Confirmo, sou aqui com este céu e com esta boca. Continuam os problemas de expressão.

Estranho isto! Vim aqui parar em mim, quando podia ser aquele septuagenário ou a atraente rapariga acolá. Sou eu. Um outro para os outros. Repenso as palavras. Se calhar, não para melhor. Refaço as interrogações: Que ter lhes faltam e desejam? Que ser eles desejavam que fossem? Confusão: Ser-ter!! E mais: Serei capaz de me fazer entender? Existirão sequer as palavras necessárias para compreender o que tento compreender? As palavras serão a ferramenta adequada para me explicar? Não há sintaxe que resista quando a ênfase da confusão está na semântica. E a contracção da língua no céu da boca não me esclarece, confusão como resultado das contradições, da incapacidade de responder a esta estranha diversidade de se sermos nós e não outro, e estes serem todos um diferente outro. Não deve pertencer ao pensamento a resposta a este mistério do tu e do eu, independentes, de ser-ter-estares em ti e eu em mim. Este mistério a pertencer a algures, pertencerá aos sonhos. Não há sintaxe nos sonhos. E neles a semântica um espectro gelatinoso onde não há problemas de expressão.

Vou dormir. Vou para os sonhos onde consigo viver e ser noutro sem nunca sair de mim. Não se engavetam de semântica e sintaxe o indivisível divisível espectro entre eu e tu e os outros. Espectral, é isso! O sonho é gelatinoso espectro onde é explicável o verbalmente inexplicável. E pode ser-se outro sem nunca deixar de sermos nós. Sim, pode-se! Não se morre nos sonhos. Acorda-se.


Conto - ou confusão - surgido a partir de...