quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

A Verdade e a Mentira na Aprendizagem: a Reflexão confessa-a

Os nossos olhos não nos permitem olhar para nós próprios. Precisamos de espelhos que nos reflictam: é ao olhar o outro que conseguimos ir ganhando consciência de nós próprios. Através da observação dos outros é que aprendemos e podemos analisar-nos em comparação. Além disso a cópia é dos exercícios de aprendizagem mais eficientes, e todos nós somos produtos da socialização com o nosso meio, onde somos todos, de alguma forma, formados pela fôrma social com que nos relacionamos (e formamos).

Se é olhando o outro e compreendendo-o que vamos ganhando consciência de nós próprios, não exclui que seja também, em simultâneo, a olhar para dentro de nós próprios que nos compreendamos (a nós e aos outros). O mundo é dialéctico, sabendo isso não nos surpreende que o nosso "Eu" e os "Outros" se correlacionem e se complementem.

Por esta interdependência entre o desenvolvimento do indivíduo com os outros, não deve pertencer ao acaso a curiosidade das crianças perante o outro, seja um adulto ou não, copiando e interrogando sobre o que vêem, nem deve pertencer ao acaso a coscuvilhice do meu vizinho. O animal em causa parece ter a curiosidade como uma característica inata, e, talvez, não sei, todos os outros mamíferos também.


O que quero agora aqui evidenciar é que este reflexo entre uma coisa e outra está sempre presente e em tudo, inclusivamente, é sempre preciso uma referência para o próprio objecto se poder definir. Ao evidenciá-lo, espero não vir a corromper as ideias de Marx relativas à mercadoria nas minhas próximas linhas.

Ler O Capital é como assistir a uma dança entre o que é e o que parece ser, entre um conceito e o seu par oposto numa relação de amor e ódio, inclusão e exclusão, em que um só existe em complemento com o outro. O Capital não sendo um livro de Filosofia, é um livro com filosofia (tal como A Peste de Camus). Exemplo duma dessas danças é a análise do Valor através de um par de mercadoria. Marx explica como a mercadoria A (tecido de linho, no seu exemplo) tem o seu valor expresso somente contra uma outra mercadoria B (no caso, um casaco). É por estas mercadorias se poderem trocar imediatamente, uma contra a outra, que a primeira toma a forma-valor da segunda, e, por exemplo, 20 metros de tecido de linho equivale a 1 casaco. O fenómeno ocorre também no sentido inverso.

E Marx ao explicar isto em O Capital deixa a seguinte nota:
"Só através da relação com o homem Paulo como seu igual é que o homem Pedro se relaciona consigo próprio como homem. Mas, assim, dos pés à cabeça, na sua corporalidade pauliana, também vale para ele como forma fenoménica do Genus Homem."


Acontece que estas relações reflexivas e de cópia trazem também consigo os significados e os sentidos que absorvemos culturalmente através dos nossos antepassados, inclusivamente os engodos que a aparência nos prega. No caso do valor de uma mercadoria o que está na sua raiz é a quantidade de trabalho humano (objectivado nela), e não, como é costume pensar-se, o dinheiro e o preço.
"Com estas determinações de reflexão, em geral, passa-se uma coisa curiosa. Um homem, por exemplo, só é rei porque outros homens se comportam em relação a ele como súbditos. Inversamente, eles crêem ser súbditos por ele ser rei." - Karl Marx (in O Capital)



Está visto que não é fácil nos libertarmos de um legado de preconceitos e outros enganos. Pergunto-me o que para além do conformismo mais haverá num indivíduo, isto é, em todos nós, que nos leva a evitar uma mudança de pensamento? Há tempos escrevi culpando a Má-Fé, mas outras mais razões podem estar por detrás dessa resistência intelectual à mudança, por exemplo, a relação entre formações de significado, sentido e identidade.

O passado pesa!
"Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem, não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam directamente, legadas e transmitidas pelo passado." - Karl Marx (Dezoito Brumário)

2 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

Ainda um dia seremos como os macacos... então teremos a ocasião de humanizar as circunstâncias e não apenas que elas determinem o nosso querer!

A filosofia é um bom começo de ano... Boa!

Bruno disse...

Há muitos que têm dificuldades em compreender esse "humanizar as circunstâncias". Se calhar, teremos antes que "chimpanzar" as circunstâncias. Antes uma das vias, que nenhuma. :-D