sexta-feira, 7 de março de 2014

A Comiseração do Tempo

Quando me encontro no sofá vejo-me à janela, a espiá-la pelas cortinas enquanto atravessa a rua, da mesma forma que me vejo em miúdo, na casa dos meus pais, a espiar um relógio sem números, todo ele ponteiros, e se calhar nem ponteiros mas somente tic tac, e é um relógio que não dá horas mas perturba o tempo, como ela perturba-me por se ter ido embora, deixando-me agarrado às cortinas a espiá-la enquanto atravessa a rua, de mala na mão, num resgate de últimos pertences que tinham ficado nesta casa, e depois de todos estes meses, as gavetas ainda vazias, e o copo para a escova de dentes ainda vazio, e um lado da cama ainda vazio, e toda esta estúpida necessidade de ter lá uma segunda almofada, como a estúpida necessidade de espiar pelas cortinas com ânsia de vê-la chegar, do mesmo modo que o relógio sem números e sem ponteiros e somente tic tac, e já em criança a perceber que o tempo é uma estupidez, como é uma estupidez fazer jantares para dois, como é uma estupidez virar o sono para o lado vazio com vontade de abraçar a vertigem do abandono, e quando me encontro no sofá vejo-me grisalho e gasto a espiar a rua pelas cortinas, e não foi o tempo com as horas e os minutos que me fez grisalho e gasto, foi o tic tac do relógio sem números e sem ponteiros, foi o tic tac dos passos dela que atravessavam a rua, foi o tic tac das coisas vazias que ficaram por encher, e só agora percebo que em vez de ter estado agarrado às cortinas, devia ter ido à rua para pará-la, devia tê-la parado para que eu pudesse sair da mala, e depois sim, deixá-la atravessar a rua à vontade para o sítio das coisas inúteis que se guarda no desvão da memória, entre o sítio das coisas prescindíveis e o sítio das coisas imberbes, porque na mala que ela levou, além da roupa que cá tinha ficado, além dos chinelos, do estojo de cosmética, da escova de dentes, levou uma parte de mim, levou aquela criança que, no quarto dos pais, concluiu que o tempo é uma estupidez, da mesma forma que espiá-la pelas cortinas é uma estupidez, tal como os vazios possessivos nesta casa são uma estupidez, e é quando me encontro no sofá que me vejo à janela agarrado às cortinas, com medo de puxar os estores e perdê-la de vista, da mesma forma que tenho medo de sair do areal e atirar-me às ondas, porque se mergulhasse nas águas do oceano talvez num ventre materno nascesse aquela criança que concluiu a estupidez do tic tac, e é nestes momentos que me apercebo que a criança nunca saiu de cá, que está mirrada com o peso das minhas comiserações, mas com resiliência própria sempre me fala ao ouvido para me dizer
- o tempo é uma estupidez

2 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

Está na hora
de deitares o relógio fora
mesmo se no sitio onde ficar
continue o seu tic tac

Ela volta
e se não voltar
não conta

C-zero disse...

O tic tac já não existe, ficou aquela impressão nos ouvidos, mas com o tempo a coisa desaparece.

E ela não volta.
Mas não faz mal, afinal não me levou na mala.

Abraço