domingo, 17 de agosto de 2014

Crónica de um Deserto

As curvas fazem a vida, dado que quando olhamos o sol vemos um círculo amarelo pujante, em movimento subtil de trajectória elíptica que reflecte fulgor no metal das jantes, e quando observamos aquela mistura de pneu com estrada, borracha e alcatrão, sentimos a energia cinética traduzida em celeridade e abraçamos aquele torpor mecânico que nos aquece os nervos, uma sinfonia de potência maquinal que rasga a misantropia dos desertos áridos, solo escaldado de verão perpétuo, chão de gretas para refúgio de pequenos répteis, visto que em movimentos circulares uma águia está de sentinela, paciente, olho redondo, persistente na procura de um aperitivo, e se nos fixarmos nesta árvore, possivelmente uma oliveira, constatamos que no nada há sempre qualquer coisa, tamanho absurdo são as teias da sobrevivência, onde uma pequena aranha descansa depois do seu labor, uma vez que o conjunto das pequenas tarefas faz um outro conjunto de pequenas histórias, da mesma forma que as folhas baloiçantes da árvore são causa desta leve aragem proveniente dos recônditos mistérios do planeta, e de papel rabiscado, calculadora na mão, computador com cálculo diferencial e modelos aproximados, tentamos compreender todas as particularidades dos fenómenos reais, contudo, e porque até a sabedoria tem limites, é-nos impossível entender o que faz um carro branco, um dodge challenger 1970, em velocidade colérica, numa estrada alcatroada no meio de um deserto, e se pisarmos a fundo o pedal do travão soltamos uma chiadeira que viola os princípios do silêncio estéril e largamos um fumegar de borracha queimada, pneus que derrapam ora para um lado ora para o outro, e no alcatrão marcamos linhas pretas oblíquas até que o carro, eventualmente, pára, e uma porta se abre, e sapatos que pisam o chão e o nosso corpo que se levanta, mãos nas ancas, dobrar as costas, estalar a espinha, puxar o chapéu e tapar os olhos, é um sol que nos cega, levar a mão ao bolso das calças e puxar um maço de cigarros, e de cigarro na boca contemplar as curvas da estrada que se perdem no horizonte, dado que perscrutamos as essências das coisas até à miopia do nosso entendimento, como quando tentamos olhar para o quadro todo, uma barreira de nuvens nos proibe o abrangência do universo, e nestas condições só percebemos as pequenas coisas, amputações da realidade em fatias muito pequenas, tudo demasiado pequeno e frágil, só uma fracção da verdade, e dado que nos dá uma vontade de mijar, vamos à berma da estrada e baixamos a braguilha, um borbulhar de urina que se mistura com o pó do deserto, e reparamos, fixados, numa águia a vaguear aos círculos num céu vazio de acontecimentos, um céu tão diferente da nossa cabeça cheia de merda, visto que fazemos da nossa vida uma montagem paciente de peças de puzzle, e completamente à toa fomos encaixando partes num lado e noutro e a dado momento percebemos que o desenho não faz qualquer sentido, tamanha confusão de partes que não fazem o todo, um conjunto de disparates sem nexo que nos pesa a consciência e o juízo, acumulado numa massa enorme que nos obstrui a apreciação das múltiplas experiências da vida, e então puxamos a braguilha para cima, apertamos o cinto e, voltando ao carro, abrimos o porta-bagagens, um saco e uma pá, e saindo da estrada, dez, quinze, vinte passos, cavamos um buraco, algumas braçadas e tiramos a camisa ensopada em suor, mais braçadas, e percebemos que há este enorme buraco que temos no peito, e nele há um vórtice de emoções perdidas, assuntos inacabados de uma vida passada que nos condicionam os projectos de uma vida futura, e muitas vezes mantemo-lo porque estamos convencidos que um dia os assuntos se resolverão, mas há nós que nunca se desatarão, dado que a vida e suas experiências consequentes são exemplos extraordinários e infinitos, e o nosso entendimento é uma propriedade limitada e subordinada à alienação, e só nos resta cavar um buraco, atirar o saco dos nossos sonhos absurdos para o vazio, tapá-lo, e finalmente voltar para casa visto que apanhámos um escaldão nas costas, o deserto não perdoa os incautos, e tudo o que sobrará é uma névoa escura de um tubo de escape, um carro que faz uma inversão de marcha, um céu órfão de uma águia desaparecida, um sol deslocado, e uma estrada, tal como a vida, feita de curvas que se perderão no efeito tremeluzente de alcatrão escaldado.

1 comentário:

Rogerio G. V. Pereira disse...

Nem um único parágrafo... mas escolho um naco, o que nos fala do buraco:

"cavamos um buraco, algumas braçadas e tiramos a camisa ensopada em suor, mais braçadas, e percebemos que há este enorme buraco que temos no peito, e nele há um vórtice de emoções perdidas, assuntos inacabados de uma vida passada que nos condicionam os projectos de uma vida futura, e muitas vezes mantemo-lo porque estamos convencidos que um dia os assuntos se resolverão, mas há nós que nunca se desatarão, dado que a vida e suas experiências consequentes são exemplos extraordinários e infinitos, e o nosso entendimento é uma propriedade limitada e subordinada à alienação, e só nos resta cavar um buraco, atirar o saco dos nossos sonhos absurdos para o vazio, tapá-lo, e finalmente voltar para casa visto que apanhámos um escaldão nas costas, o deserto não perdoa os incautos"

Comentário? Sim, um citado:


"Toda a tristeza é reaccionária; todo o pessimismo é retrógrado"!