terça-feira, 9 de setembro de 2014

Crónica de uma Lembrança

Quando as luzes se apagam são vultos que vagueiam nas penumbras das ideias, sombras que se afastam e que se aproximam, em silêncio, nas madrugadas pesadas e longas, madrugadas insones, dado que nos assalta uma sede, uma garganta de pavores nocturnos, uma violência que se remexe nos nossos intestinos e já só nos resta ir ao frigorífico, no resgate do vinho branco, a profilaxia que os nossos instintos nos recomendam, e quando puxamos pela porta do frigorífico há aquela resistência de vácuo que nos dificulta as soluções mais fáceis, soluções que também são as mais frágeis porque nos atiram para um limbo, uma corda bamba de estados emocionais, uma dúvida que nos oprime a consciência, no entanto a porta cede e dá lugar à luz que nos estonteia os nervos, piscámos os olhos, com uma mão protegemo-nos da cegueira e com a outra buscamos a garrafa, recordamo-nos de uma infância, de uma feira, que hoje detestamos, aquele espectáculo de desordem e confusão, e gentes que se comunicam em decibéis difíceis de suportar, e é tão fácil os nossos olhos se perderem nas dezenas de barracas, e nas centenas de inutilidades que se vendem, e toda aquela sensação de sorrisos falsos e intrigas e desonestidades, toda aquela sensação de vivências marginais, tudo tão circense, da mesma forma como detestamos o circo, já não suportamos aquele modo de vida paralelo porque sabe-nos a logro e a fantasias do degredo, e vemos o nosso pai a regatear fruta num diálogo de compadres, num jeito de amizade forçada que tilinta uns cobres que se trocam por um saco de maçãs ranheta, uns sorrisos, uma gargalhada que se confunde em gargarejar, um escarro para o canto, obrigado e até amanhã, e nisto uma maçã rola da bancada e cai ao chão, e por lá se fica entre sapatos que se movem, e de pontapé para ali e outro para acolá, a maçã experimenta a turbulência do quotidiano humano até repousar num ângulo escondido entre barracas, esquecida e perdida, nem um rato que se aproximou para farejá-la fixou interesse na maçã, uma vez que foi expulsa das dinâmicas existenciais, relegada à condição do desprezo e da repulsa, uma maçã solitária em estado de decomposição acelerada, visto que foi retirada da qualidade que subjaz a matriz de existência das coisas existentes, porque fora do seu contexto cessam as razões que a mantinham no plano da sua entidade como maçã, já só lhe resta o caminho do perecimento, contaminada por um bolor de tons azuis e verdes e um arco-íris de putrilagem, nem as sementes escapam, nem a possibilidade de renascer foi-lhe dada, completamente condenada a desaparecer neste varrer de desdém que a vida nos oferece, e ao recuperarmos o presente, ainda cegos do frigorífico, desistimos da garrafa de vinho, porque já nos basta a marginalidade da noite, e é a cama que nos impele a refazer as oportunidades do amanhã, pois é o sono que nos reabilita as podridões das narrativas diárias, no entanto somos obrigados a frisar que não somos maçãs, somos homens, e mesmo quando vetados ao esquecimento, projectamo-nos nos sonhos e nas utopias, neste fluxo inesgotável de existência humana, muito para além das nossas sementes e do nosso perecimento.

1 comentário:

Rogerio G. V. Pereira disse...

Li. Ocorre-me versos de um poema antigo, de um poeta (que suponho) nosso amigo que dizia que nós não fomos ouvidos para o acto de que fomos nascidos e por isso será legitimo não ter de haver agradecimento aos nossos progenitores, ponto. Trazidos à vida, façamos dela o que melhor soubermos e, quando estamos sós sabemos pouco e ficamos limitados nas opções. Entre a garrafa de vinho branco-frio e o sono-também-gelado porque mais não há não é pouco é mesmo uma penúria de recursos. Assim, há quem se considere morto e morra, mas mesmo morto discorre um texto que desassombra. Acorda, porra!