domingo, 8 de dezembro de 2013

Grande prazer que a leitura me dá

Ernest Hemingway
«Fomos pela floresta, e a estrada saiu e contornou uma elevação de terreno e à nossa frente estendia-se uma ondulada planície verde, com montanhas escuras ao fundo. Estas não eram como as outras, castanhas e queimadas do sol, que deixáramos para trás. Eram arborizadas e delas desciam nuvens. A planura verde alongava-se. Era dividida por valados e a brancura da estrada destacava-se entre os troncos de uma dupla linha de árvores que cortava em direcção ao norte. Ao atingirmos o fim da elevação, vimos os telhados vermelhos e as casas brancas de Burguete emergirem, à nossa frente, da planície, e, ao longe, às cavaleiras da primeira montanha escura, estava o telhado de ardósia cinzenta do mosteiro de Roncesvalles.- Lá está Roncesvalles - disse eu.- Onde?- Além, onde começam as serranias.- Está frio cá em cima - observou Bill.- É da altura. Devemos estar a mil e duzentos metros.- Está um frio terrível.» (Fiesta de Hemingway, páginas 85-86)

«Roncesvalles é um lugar onde, na canção medieval de Rolando,  Rolando e os seus amigos, traídos por um deles, são mortos na emboscada dos Sarracenos. A genialidade de Hemingway está no facto de não chegar a dizer isso. Só a palavra "Roncesvalles" nos diz que os dois amigos se trairão. A amizade está a chegar ao fim. Depois a repetição. «Está frio, disse o Bill. Está um frio horrível.» Naturalmente, está a falar-se do frio no coração deles. Só um grande artista é capaz de dizer tudo sem dizer nada.» (George Steiner no documentário O Belo e a Consolação [1])

Em criança fascinava-me o conceito «mind-blowing». Ainda hoje me fascina. Há outras coisas que também me fascinam, a «teoria da omissão» [2] é uma delas. 
«Para bom entendedor, meia palavra basta» - outro conceito que transporto diariamente comigo. 
Em miúdo, desenvolvi hábitos diários de leitura. Com a juventude, no auge hormonal das aventuras desastrosas, fui perdendo gás, e os livros perderam-se em segundos planos. Quando entrei na faculdade, a leitura recompôs-se como prioridade no meu dia-a-dia. Leio com imenso prazer. É comum apanharem-me a sorrir para um livro. Vivo a leitura de uma maneira absorta. Fora os grandes petiscos gastronómicos, nada me dá mais deleite que ler uma obra de génios. Fi-lo em algumas ocasiões. Fi-lo com Hemingway. O que é, para mim, uma obra de génios? É aquela que me obriga a procurar e a sentir o implícito. E quando encontro-o: «mind-blowing» e sorrio, absorto, para o livro. 

«Só um grande artista é capaz de dizer tudo sem dizer nada»


[1] Youtube
[2] Wiki

2 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

Julgo que o meu "Almas..." não te merecerá grande atenção. Problema meu, fraco artista capaz de dizer tudo dizendo alguma coisa.

Se queres tirar a prova, está disponível na Biblioteca Municipal de Oeiras (de onde nunca terá saído, julgo eu)

Bruno disse...

ahah... Ainda não mereceu a minha atenção, não. Mas também nunca li Hemingway, por isso, o Rogério já tem algo mais em comum com ele.