quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Mas que faço eu aqui?!

Mas que faço eu aqui?! - é uma questão que surge com alguma regularidade, pelo menos a mim. Não que me ofereça vulgarmente ao acaso e as suas consequências, mas mesmo quando estou em situações em que fui levado pela razão, um sentimento de inutilidade e ausência de sentido ressurge.

Ontem fui levado pela razão a uma assembleia de freguesia. Fazia todo o sentido ali estar, ainda mais tendo participado numa das listas eleitorais. Mas nada me preparou para o que assisti.

A sala de reuniões não tinha espaço para o público assistir. Fiquei do lado de fora sentado com o restante público. Pareceu-me claro que o público não é bem-vindo e que um pouco de tudo se faz para evitar que ele insista em aparecer nestas reuniões. Mas o pior está por referir: a assembleia foi convocada e dirigida com um tremendo amadorismo por parte da presidente da mesa. Fiquei com sérias dúvidas que ela fosse ao menos literada.

A falta de brio e competência da presidente da mesa resultou em mais de três horas de reunião só para tratar do assessório, meras questões (que deveriam ser) formais. As leis da República foram ali muito mal-tratadas. Em boa verdade, o que ali se viveu é indescritível. Mas o pior ainda não foi contado.

O maior mal que senti ali, ao assistir àquela assembleia, foi que o seu sentido se esvaziou para quase todos aqueles que ali estavam. Questionava-me: "Mas que raio faço eu aqui?!". Pensava: "Mas isto existe?! Sairá alguma coisa de útil daqui?!". Constatava: "Isto é surreal!! Absurdo!!".

Um vazio assombrou-me. Só consegui estar presente durante três horas a esta assembleia da união de freguesias. Foi quando finalmente a ordem de trabalhos começou a ser tratada. Incrível o tempo perdido por causa de evitáveis problemas formais provocados por uma inútil!

A assembleia foi uma fonte de reflexão sobre o Absurdo. O conceito de alienação ganhou em mim uma dimensão nova, kafkiana e muito real.

A quem serve tal presidente da mesa ao ser assim? Penso que ela é quem ali tem um sentido de existir, e quase mais ninguém. Ela existe para nos sugar as almas, alimenta-se do nosso esforço para conseguir um sentido à nossa existência. Ao pé de tudo isto, Kafka, mesmo que tivesse escrito uma versão de Drácula, continuaria a ser um menino.

Tenho quase a certeza de que a luta dos eleitos naquela sala engloba a necessidade de continuarem a acreditar que a sua presença ali faz sentido.

1 comentário:

Rogerio G. V. Pereira disse...

"Tenho quase a certeza de que a luta dos eleitos naquela sala engloba a necessidade de continuarem a acreditar que a sua presença ali faz sentido."

É mesmo isso, Bruno. É mesmo isso!