terça-feira, 22 de abril de 2014

O Abandono dos Infelizes

Fechar a porta e alfabetizar paredes com murmúrios de angústia, conforme a luz quadriculada dos estores segreda à penumbra, e se me resta voz esta queda-se em palavras de silêncio, como quando Lobo Antunes sentado à minha frente, de olhos cinzentos no Público, e eu de Arquipélago da Insónia na mão, sem afoiteza para incomodar terceiros, 
deixei-me ficar na insignificância
- tu és triste
porque sou caixa de ressonância
porque sou um pedaço à margem dos bocados, sem dialéctica com a existência,
(qual?)
sou estrangeiro e quando reconheço náusea no absurdo, tremo e expludo, impludo, demolição auto-infligida, e é tudo uma grande chatice, como os condenados do Internamento da Hematologia, e é uma chatice
(uma merda)
um desespero de corpo físico, um estrangulamento no tórax, uma imensidão de ideias sem palavras, sem música, sem pintura
- tu és triste
e como fazer por esquecer, da mesma forma que em criança fechava os olhos e forçava a crença, misturava-a com o desejo mais veemente, para depois tentar acordar
e nada
tudo na mesma
um nevoeiro que me tapa a vista e dou por mim a tactear a humidade, com toda esta sensação de frio nos ossos, este incómodo que me absorve a razão, e se dou às cordas vocais um apelo a resposta só me aparece em forma de eco, distorcida e vaga, sem utilidade, tal qual o papel que escrevo, distorcido e vago, uma mancha de angústia
- tu és triste
(há quanto tempo que não verto lágrimas)
não sei como fazer para que me compreendam, e verdade seja dita, é possível que não se queira compreender, aos leprosos de espírito dá-se um asilo, abandonando-nos às palavras e aos sonhos, e por falar em sonhos, escarrapacham-me a ausência, da mesma forma que a ausência ensombra-me os dias comuns cobrindo-me de remorso e arrependimento, uma pitada de culpabilidade e uma colher de chá de zanga, e há dias que o vazio é menos mau, convenço-me que posso escrever uma monografia do ser que é ser angustiado, mas entre o posso e o resto, a lucidez desfaz-me intuitos, qual pai austero
- tu és triste
e é tudo um equívoco, uma mentira, uma hecatombe de falsidade, porque se não me desembaraço é porque faço o oposto e embaraço-me em cordialidades, está tudo bem obrigado e contigo está tudo bem, e nas rugas, nos olhos, no esgar de lábios, a verdade, a angústia manifesta-se constante, omnipresente, porque as palavras mentem mas o corpo projecta-se na boa-fé, e depois de tanto engolir sapos, um deles coaxa um linfoma, e da próxima vez um atestado de morte, sem cabelo, sem pestanas, sem ponta de humanidade, um último uivar, sem reticências, só aquela sensação de ralo no fundo da banheira, e lá se foi a vida, ou o que resta dela, e mais uma vez: como explicar tudo isto sem que me levem a mal, sem que apareçam homens de bata branca para me levarem ao asilo dos leprosos de espírito
- tu és triste e eu quero ser feliz
para depois me darem uma daquelas injecções que me calam, e vestem-me de colete de forças e uma mordaça, e tudo o que peço é para que fechem a porta.

1 comentário:

Rogerio G. V. Pereira disse...

Antes triste que traste
Desabandona-te, mereces que te deixe a porta aberta...

(um texto a merecer respeito)