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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O Mito de Empreendedorismo

O empreendedorismo não é uma moda, é uma filosofia. Empreendedorismo não se limita às antigas definições. Faz parte da mutação económico-social vigente. Não é por acaso que empreendedorismo é matéria explorada por cursos e cadeiras ligadas à gestão empresarial e à economia. 
É importante perceber que há uma inevitabilidade: todos os sistemas mudam. Estão em perpétua mudança, e não há forma de travar a mutabilidade. 

Longe vão os tempos em que a economia focava-se na produção. A economia de hoje foca-se no lucro. O lucro faz-se de duas formas: exploração de mão-de-obra e especulação. Muito ruído se faz para fugir às evidências. É preciso repetir vezes sem conta. O lucro faz-se pela exploração de mão-de-obra e pela especulação. O lucro faz-se pela exploração de mão-de-obra e pela especulação. 
Contudo, esta filosofia económica tem falhas que consequentemente levam a crises económicas, ou crises financeiras ou crises imperialistas. Ora faz-se uma crise de sobre-produção ora faz-se uma crise de especulação financeira.
Como se disse, todos os sistemas mudam. Tenta-se corrigir as sucessivas falhas. A última resposta do sistema actual é o empreendedorismo. O antigo consumidor passa a ser consumidor-produtor-consumidor. Todo o individuo passa a produzir e a consumir no binómio que se mistura e que se confunde. Produção e consumo fundem-se numa nova forma de ser. Produção e consumo passam a ser um único acto. Isto não seria mau se, primeiramente, a produção fosse orientada e organizada socialmente, e não por impulso individual; e se esta relação produção-consumo libertasse o homem como ser que usufrui a vida e as suas respectivas experiências humanas. O empreendedorismo levará o homem a extinguir-se em relações de mercantilismo. As relações autênticas não cabem nesta nova filosofia. Tudo será mercantilizado e objectificado. No passado mais recente até aos dias de hoje constatamos o óbvio: o empreendedorismo tem levado milhares de indivíduos a produzir inutilidades originais. O mercado está saturado de produtos e serviços. Aos novos empreendedores, para que sobrevivem num mercado cada vez mais desregulado, altamente competitivo, à mercê de tubarões monopolistas, é necessário e obrigatório que apresentem um novo e singular produto. Tem de ser socialmente necessário? Não. Tem de ser original e apelativo e tem de fazer lucro. Milhares de empreendedores vestem gravata e fato-macaco. São patrões e empregados. Laboram sem horários fixos. Não recebem ordenados fixos. Todo o lucro é revertido como capital de investimento. Se não o fizerem, se preguiçarem naquilo que definiram como período de descanso, estarão condenados a perecerem nos escombros do mercado livre. Todo o tempo é dinheiro e é uma corrida pela sobrevivência. Só se produzirá lixo e gerações futuras em desespero. Aqui está o novo mito de Sísifo. O Mito do Empreendedorismo. 

Para concluir. Muito se tem falado sobre empreendedorismo. Ainda hoje passou na televisão um anúncio que dizia algo como:
«os portugueses são aventureiros e empreendedores»
Os telejornais guardam para o fim crónicas sobre empreendedores de sucesso. 
Mais uma vez: muito se tem falado sobre empreendedorismo. Como fórmula mágica para sair do desemprego. Como solução para quem quer sair do emprego que o torna miserável. Contudo, há pormaiores que são omissos. A esmagadora maioria dos indivíduos que opta por se tornar empreendedor precisa de um empréstimo bancário para capitalizar o projecto. Estatisticamente, a esmagadora maioria dos empreendimentos falha no primeiro ano de existência. Isto resulta em dezenas, centenas, milhares de indivíduos que contraíram um empréstimo bancário que os irá sufocar para o resto da vida. Nada disto se tem falado. Outra questão pertinente prende-se no interesse da banca privada. A banca privada vive da especulação, e o produto que se especula é a dívida. Com a crise imobiliário recente, o ganha-pão da banca privada esfumou-se. Esta nova filosofia que se tem espalhado como infecção é exactamente aquilo que a banca privada precisava. Novos empréstimos bancários que criarão novas bolsas de dívidas, e que resultarão, novamente, em especulação. Quantos mais se aventurarem pelo empreendedorismo, mais a banca privada agradece. E acreditamos, sem sombras de dúvidas, que nada disto é por acaso. 
É necessário e urgente compreender que esta nova filosofia é uma mutação dos sistemas regentes. Contudo, e por muita operação de cosmética que desenvolvam, as principais contradições estão lá todas. Para terminar, um facto histórico: esta filosofia só acelerará o suicídio que o sistema capitalista está condenado a cometer. 

terça-feira, 8 de julho de 2014

Visão de uma Lisboa Desistida


Do Intendente sem putas ao Cais do Sodré sem putas a pé. Caminhando com passo largo, acompanhado por uma amizade honesta mas descartável, trocávamos a segurança dos passeios pelas estradas. Já foi tudo fodido. Como é bela Lisboa! Do charmoso degredo de edifícios escuros da Almirante Reis ao charmoso degredo de fachadas iluminadas da Baixa. Calçada forrada de jazigos de cartão e cheiro de futuro desistido. Preferimos o risco de sermos dilacerados por um automóvel embriagado. Descartáveis. Constatar a realidade, isto é, absorver as feições que dormem nas fachadas, não é força motriz de quem corre para o futuro, para o último eléctrico ou comboio da noite.

- É melhor correres senão perdes o comboio

Caminhando pela Baixa com passo largo, acompanhado pelos edifícios iluministas e que a burguesia em ascensão outrora mandou construir, absorvo as raízes que sobram e seguram a Cidade até ao próximo comboio. Como é bela Lisboa! Além de madeira e argamassa, o futuro era outro dos elementos de construção que a classe dominante usava. Mas deixou de usar. Haxixe? Não, obrigado.

O torniquete impediu-me de apanhar a tempo o comboio. Sou descartável. Fiquei à espera do próximo e último. Sozinho, e um segurança só que complementava a linha de torniquetes. Fundamental. Pouco se ouve da cidade. A fila de lâmpadas no tecto falso fazem um contínuo zumbido. Aragem húmida e fresca no pescoço e a vista num grupo de pernas nuas de tenra lascívia. Está tudo fodido. Agora esperam o comboio mais dois além de mim. O rapaz enrola erva. O homem enrola a cabeça entre os braços. Esperam em gestos de futuro desistido. Quererão realmente apanhar o comboio?

Pouco se ouve da cidade. Apenas gritinhos estridentes que as carnes por fecundar fazem. Chega o comboio e jorra as últimas pernas na noite. Como é bela Lisboa! Lasciva. Entra-se nas carruagens em movimentos de futuro desistido. Não sei se a Cidade nos descartou ou se nós a descartamos ao introduzirmo-nos entorpecidos no comboio.

Da janela surgem duas construções. São as próximas fachadas da sede da companhia de electricidade. Destoam em altura e em história o rio e não durarão além de meia-dúzia de décadas. Penetrando a aparência vislumbra-se que não têm raízes e não têm em conta o comboio. Aço e vidro de fachadas-marketing da aparência pela aparência. Descartáveis.

Mais jazigos de cartão ocupados. Junto, mais jazigos de alvenaria sem corpos dentro! Descartáveis. Entorpecidos com álcool enrolado dentro da cabeça enrolada entre os braços enrolados nas fachadas enroladas pelos sons e sonhos desistidos.

- Seu bilhete sffv. obrigado

A Cidade só resistirá como Lisboa quando deixarmos de evitar tomar consciência dela. E de nós, que lhe damos vida. Não fosse a cidade uma fôrma da forma como somos. Só resistirá se a tomarmos como nossa e a resgatarmos desta classe predominante que tudo torna descartável. Predominarmos nós, finalmente, que sempre fomos a raiz da Cidade. Trabalhadores! Não fosse a luz da cidade pintada com nossas mãos. Não tivesse Lisboa a forma da fôrma que lhe somos.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Amam Deus e os filhos e o próximo

por Felix Nussbaum (link)
Dizem que amam Deus, os filhos e o próximo. 

Ironia! São indiferentes aos desempregados, aos massacres e ao ascenso do nazi-fascismo (link), às bombas dos drones e ao urânio empobrecido que longe matam. São indiferentes a isso e não só. No facebook e outras redes sociais, blogs inclusivé, há quem dê os alertas e às vezes quase gritam por socorro.

Mas a indiferença supera. Dizem que amam Deus, os filhos e o próximo, no entanto abdicam de os ajudar quando abdicam de tomar conhecimento sobre o mundo e agir. Sobretudo se a acção for além dos seus umbigos, for com e para os outros, isto é, se a acção for política, de massas. A ignorância ganha em culto a tudo excepto a Deus. Pleonasmo! Deus torna-se o único reduto para que sejam poupados os filhos e o próximo.

Amor a Deus, aos filhos e ao próximo, que tantos dizem ter, é contradito pela frivolidade como amam e como ignoram as transformações da sociedade. Confesso que me estou a cagar para os meus filhos e para Deus. Antes cagar assim do que amar de frívola e indiferente forma. E assim faço mais em prol de todos do que estes amantes empestados pela indiferença. Peste!

Vamos todos morrer. Apesar disso, insistimos.