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sábado, 22 de março de 2014

Bloco de Notas #1

(a partir de certa altura se não somos nós que desistimos as partes de que somos feitos desistem sozinhas, vou-te perdendo Maria Adelaide ao perder o som da mobília, não te afastes agora que os círios nos copos de papel caminham ao meu lado)                                            O Arquipélago da Insónia - pág 154, 6º parágrafo

Ainda anotei:
Se em vez de Maria Adelaide estivesse escrito Joana, nunca mais me levantaria da cama. 

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Livros Que Marcaram a Minha Vida #1


Mar Morto - Jorge Amado
Foi o primeiro livro que me fez chorar. Foi há alguns anos, mas ainda transporto comigo esse momento. É como a memória do meu primeiro beijo: foi um acidente. 

Os Cus de Judas - António Lobo Antunes
Primeiro livro que li de Lobo Antunes. Na minha vida há uma fase pré e pós. Recordo-me que me foi dado a ler por um amigo: «escreves exactamente como este gajo». Li. Não se confirmou: não escrevia como aquele gajo. Hoje já nem sei como devo escrever, apetece-me fazê-lo nos relatórios e nos exames mas não me deixam. Há aquela linguagem «científica». Que chatice. Quero escrever como Lobo Antunes em panfletos revolucionários. 

A Morte de Ivan Ilitch - Liev Tolstói
Como é que imagino o lento processo da morte? A resposta para mim é Ivan Ilitch. No Hospital Santa Maria, presenciei essas mortes. Se fui capaz de as reconhecer, devo essa competência a Tolstói

Tempo Escandinavo - José Gomes Ferreira
José Gomes Ferreira deu nome à minha antiga escola secundária, o mínimo para retribuir a sua simpatia foi lê-lo. Já o tinha feito, em garoto, com As Aventuras de João Sem Medo. Queria algo que me marcasse a memória, e fi-lo com Tempo Escandinavo. Ler o livro ajudou a apaixonar-me pelas miúdas. Acho que me ajudou. Obrigado José Gomes Ferreira. As Anas, Joanas, Elisas, Isadoras, Bárbaras, Dianas, Telmas também deviam agradecer. «Obrigado José Gomes Ferreira» dizem elas no meu imaginário. 

Pela Estrada Fora - Jack Kerouac
Ainda hoje acho que não sei pronunciar Kerouac. Não faz mal. Hoje sei apreciar de olhos fechados o Bop e o Hard Bop. Foi ao ler este livro que bebi um copo com Charlie Parker. É daquelas coisas que não esqueço. 

A Peste - Albert Camus
Num dos momentos mais marcantes da minha vida, em pleno processo de tratamento, durante os dias do meu internamento, Camus resgatou-me parte da sanidade. Aprendi que para superar cancros e cancros é preciso deixar cair a esperança e fazer o que é preciso. Tive de lidar com a Peste como a cidade de Orão lidou. 

Cem Anos de Solidão - Gabriel García Márquez
Que gozo me deu a ler este livro. Foi qualquer coisa de inacreditável. Houve uma parte de mim que se tornou homossexual: apaixonei-me em bruto pela escrita de García Marquez. Ao ler Cem anos de Solidão senti que se falava da história da América Latina e o livro atiçou, em mim, toda esta paixão-combustão que tenho por aquelas terras e por aquelas gentes. 

Lolita - Vladimir Nabokov
Leio sem me preparar para o que vou ler. Entro nos livros completamente virginal e descomprometido. Arrependo-me tantas vezes quando me aventuro sem preparo. Lolita foi um soco no estômago. Foi um pontapé nos testículos. E nunca me arrependi dessa aventura às cegas. Acredito que todos nós guardamos na memória a nossa Lolita. A minha é uma Lolita não ninfeta. Não sou um Humbert Humbert para me deixar seduzir por crianças. 

Cão como Nós - Manuel Alegre
Kurica é como o meu Lux e a minha Milady. E nos pronomes possessivos, não há relação cão-dono. Tudo se aproxima e se confunde como a relação que se tem com irmãos. Nunca consegui separar esta forma de me relacionar com os cães. Este livro ajudou-me a aceitar o adeus do meu Labrador. Se tivesse sido qualquer um de nós a despedir-se primeiro, ele teria sofrido infinitamente mais a nossa falta. É o que me consola. 

A Mãe - Máximo Gorki
Não sei o que dizer sobre este livro. Não foi o primeiro que me fez chorar: foi o segundo. É um livro que me entristeceu ao mesmo tempo que me motivou. Há um misto de emoções, que se relacionam entre si, e que fez desta obra, uma das que mais me marcou. Revejo-me neste retrato que foi escrito por Gorki. Uma pessoa perdida e alienada que se entranhou nas suas obrigações até se libertar. Não sei o que dizer sobre este livro.

Ideia baseada a partir do 10 mil insurrectos
Imagem retirada daqui

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Reflexões Sobre a Amizade

[1]
«Havia algo no relacionamento dos dois, ternura, seriedade, dedicação, algo de fatal, e essa irradiação desarmava qualquer tendência sarcástica. Em todas as comunidades humanas, esse tipo de relação suscita o sentimento de uma certa inveja. Não há nada tão desejado pelo homem, como uma amizade desinteressada. Mas é um desejo sem esperança. No colégio, os rapazes refugiavam-se no orgulho da sua origem, ou nos estudos, nas farras precoces, nas bravuras físicas, ou nos amores prematuros, confusos e dolorosos. Nesse tumulto humano, a amizade de Konrád e Henrik cintilava como a luz mansa de uma cerimónia votiva medieval. Nada é tão raro entre jovens como uma afeição desinteressada que não pretende do outro nem ajuda nem sacrifício. A juventude está sempre à espera do sacrifício da parte daqueles a quem entrega a sua esperança. Os dois rapazes sentiam que viviam numa condição maravilhosa, sem nome, num certo estado de graça.»  Sándor Márai, As Velas Ardem Até ao Fim 
[2]

« (...) E foi assim, ficámos amigos de infância. É assim: instantâneo e absoluto como o amor. (...) No amor, o ciúme é normal, e até posso aceitar o sentimento de posse. Na amizade, isso não existe, os nossos amigos têm outros amigos, e nós aceitamos isso. Mas talvez não sejam sentimentos tão diferentes... Para mim, a amizade é completamente assexuada, não sou capaz de sexualizar uma amizade (...) »                                 António Lobo AntunesGrande Entrevista na revista Visão n.º 1085                                                                                                
«Deve ser difícil as mulheres entenderem isto mas, para os homens, fazer chichi lado a lado, ao ar livre, é sinal de amizade, a olharmos para baixo, cheios de duplos queixos.»
António Lobo Antunes, Crónica de Muito Amor (Do Quinto Livro de Crónicas)

  Do conto A Angústia da Solidão, citei Sándor Márai. Fiquei a conhecê-lo com a obra As Velas Ardem Até ao Fim. A obra que li dele marcou-me, elevou toda uma consideração que eu tinha pelo o autor. A relação entre os dois amigos, explorada pelo livro, ajudou-me a consolidar impressões pessoais sobre a amizade, e a desenvolver novos esforços para compreender as ligações que nos unem aos outros. 

A vida, às vezes, é feita de coincidências interessantes, daquelas que nos ajudam a suportar melhor as dificuldades do dia-a-dia. Depois de terminar As Velas Ardem Até ao Fim, naquele momento introspectivo onde quero alcançar o que ficou acabado, caiu-me na mesa a Grande Entrevista com António Lobo Antunes, com algumas reflexões sobre a amizade, em convergência com as considerações exploradas pelo escritor húngaro. Foi uma feliz coincidência.

[1] Imagem retirada daqui
[2] Imagem retirada daqui