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sábado, 11 de abril de 2015

Jazz e Local de Culto

Universal Indians & Joe McPhee, 11 de Abril de 2015
Acabei de ver o melhor concerto de Jazz que alguma vez vi. Os Universal Indians com Joe McPhee, na Smup, Parede.

Fui sozinho. Subi ao sótão da Smup e sentei-me com antecedência nas cadeiras da frente, fiquei a observar os músicos. Sem nada ter dito ou feito, apenas sentado à espera do público, Joe McPhee tinha claramente uma áurea que só as grandes figuras míticas do Jazz e Blues conseguem ter. Céus!, como pode estar um ser raro destes num sótão na Parede?! Procurei mandar uma mensagem ao André - que não pôde aparecer por causa do canalizador - a dizer que Joe McPhee estava ali sentado a existir, como se pudesse haver seres mitológicos a existir no concreto, mas perdi o contacto do rapaz. Há momentos que se têm de alguma forma partilhar com alguém. Um pôr-do-sol não é tão belo quando se o vê sozinho, dizia-me uma amiga.

Foram chamar o público aos andares abaixo. Fez-se a apresentação da banda como sempre ali se faz. Vai começar o concerto! Simplesmente, quase sem aviso, a banda explodiu em som. Violento, como nunca em outro estilo de música ouvi. Violento, contudo, não é a palavra adequada. Como gostaria eu de saber qual a palavra que descrevesse com justiça aquilo! Soava a Liberdade. Desliguei-me pairando naquela polifonia multilingue e frenética poliritmia emocional que destruía a cada verso sónico as convenções gramaticais da música de plástico, projectado num voo saxofónico, irrepetível, transformador. Afinal, há coisas que só se deve experienciar sozinho.

Sabia, antemão, que muito provavelmente iria assistir a um dos melhores concertos de Jazz que já vi, mas jamais que iria ser tão bom. Fiquei vários minutos a observar a banda a arrumar os seus instrumentos e finalmente desci ao andar abaixo para voltar a mim. Abandonara o sótão dos seres mitológicos. Sentei-me a tentar ler o meu livro enquanto voltava ao mundo concreto. Li (ou tentei ler) sossegado entre a confusão do bar até ter condições de voltar a conduzir e voltar para casa. Definitivamente, há uma relação dialéctica entre o abstracto e o concreto, e o Jazz é um dos intermediários. 

Por muito contraditório que pareça, há pôres-do-sol que se devem assistir sozinho.

domingo, 13 de julho de 2014

Charlie Haden

Demorei a compreender porque me perturbou tanto. Passei a manhã inteira a ouvir e a ler sobre ele, a ultrapassar este desaparecimento. Morreu Charles Haden!

Na noite anterior tinha lido isto, mas não me apercebi...

Há muito que era o baixista que me desafiava mais no Jazz, sem compreender se gostava ou não dele, se me tocava realmente ou apenas me fazia confusão. Seu estilo decidido e imparável, mesmo quando nas músicas mais calmas e composições de toque evidentes, havia algo que achava não bater certo... era uma tensão constante, um flutuar tenso pela harmonia sempre com o entoar decidido e imparável do baixo de Haden.

Há tempos percebi que ele era o branco que tocava nos álbuns do Ornette Coleman! Ouvia-os sem saber quem ele era, ignorando a sua importância. Frenéticos. Esses álbuns ajudam-me agora a compreender o que me fazia confusão em Haden. Vejo um bocado os baixistas de Jazz como aqueles que fazem de corda e rede em simultâneo para a banda passar, mas Haden não era rede, e se fosse corda ela estaria bamba. Se a banda quisesse sobreviver à queda teria voar ou cair com ele, e arriscavam-se a ser embrulhados numa luta de vai ou racha. Mais ou menos isso.

Só agora, que morreu, é que percebi o valor que me tem. Ainda por cima, ele tem uma das histórias mais fascinantes relativamente à história do Jazz em Portugal...


Até amanhã, camarada!