Um registo com 18 anos, que no mundo frenético em que vivemos, me parece uma eternidade.Registo videográfico efetuado em Coimbra da apresentação realizada na Faculdade de Letras, do livro "A Arte, o Artista e a Sociedade" de Alvaro Cunhal no ano de 1997..De minha parte, coloco este registo sem propósito politico ideológico, apenas, a vontade de partilhar a memória de um momento.
Publicado por Antonio Manuel Ramires em Terça-feira, 29 de Dezembro de 2015
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
"A Arte, o Artista e a Sociedade" - Álvaro Cunhal em 1997
Registo videográfico efetuado em Coimbra da apresentação realizada na Faculdade de Letras, do livro "A Arte, o Artista e a Sociedade" de Alvaro Cunhal no ano de 1997... [daqui]
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terça-feira, 10 de novembro de 2015
República Democrática dos Estados Unificados do Portugalistão
Isto é histórico! Aconteceu mesmo.
Na República Democrática dos Estados Unificados do Portugalistão, país asiático, outrora uma República Socialista Soviética, pelo menos entre 1974 a 75 (há coincidências incríveis!!), ocorreu em 2014 algo que é factualmente histórico:
Na R.D.E.U.P. havia apenas 10 partidos. Um de direita. Nove de esquerda.
O partido mais votado em 2014 foi o de direita com 11% dos votos. O segundo teve 10.01%.
Todos aqueles que no dia-a-dia pouco ou nada fizeram em prol da democracia, de repente, acusaram que era pouco democrático que o partido de direita, que foi o mais votado, "vitorioso" com 11% de votos, não fosse o partido do Governo da República do Portugalistão.
Acusaram ainda que era ilegítimo, uma falta de respeito, imoral, que fosse o segundo partido mais votado, com 10.01%, a preparar-se para formar governo. Só possível por estarem sedentos de poder, claro.
Para eles a "vitória" da direita com 11% versus os 89% da esquerda, fazia com que um governo de esquerda fosse uma aberração. Nunca compreenderam que as eleições não são um jogo para ver quem sai mais votado, mas um acto político de escolhas de políticas.
Na República Democrática dos Estados Unificados do Portugalistão venceu a democracia existente: a maioria política de 89% proporcionou o governo possível, o mais coerente quanto aos resultados eleitorais e respectiva relação de forças no Parlamento. Assim foi.
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
Descarrilou-se no tempo!
Escutem:
O Billy Pilgrim descarrilou-se no tempo.
Billy deitou-se a dormir quando era viúvo senil e acordou no dia do seu casamento. Entrou por uma porta em 1955 e saiu por outra em 1941. Voltou a sair por essa porta e descobriu que estava em 1963. Viu o seu nascimento e morte, muitas vezes, diz ele, e faz visitas fortuitas a todos os acontecimentos entre ambos.
in Matadouro Cinco ou a Cruzada das Crianças, Kurt Vonnegut
Apesar de tudo continuo a ler o livro com a esperança de perceber melhor e com fidedignidade o que se passou em Dresden.
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Quarta Dimensão!
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Isto às vezes é tremendo porque a gente quer exprimir sentimentos em relação a pessoas e as palavras são gastas e poucas. E depois aquilo que a gente sente é tão mais forte que as palavras...
António Lobo AntunesÉ por isto e muito mais que há quem seja «migrante» de amor e ódio do que virá.
domingo, 7 de junho de 2015
sábado, 9 de maio de 2015
9 de Maio - Dia da Vitória
A 2 de Maio de 1945 o exército da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas tomava o Reichstag. A bandeira vermelha com a foice e o martelo, hasteada por um soldado soviético, ondulava em Berlim. Passados alguns dias, a 8 de Maio de 1945, a Alemanha nazi assinava a sua rendição incondicional. A 9 de Maio o povo soviético comemorava em Moscovo a vitória na «Grande Guerra Patriótica», fazendo esse dia passar à História como o «Dia da Vitória». Tinha terminado a II Guerra Mundial no continente europeu, seguir-se-ia a derrota do Japão imperial no continente asiático. [1]
Discursos de Stalin
Esta é uma raridade, legendada até agora em poucas línguas: o discurso de Stálin na Praça Vermelha diante das Forças Armadas, no aniversário de 24 anos da Revolução Bolchevique de Outubro, a 7 de novembro de 1941 - assim nos apresenta o vídeo legendado e publicado pelo canal de Youtube Pan-Eslavo Brasil.
O autor da tradução e legendagem contextualiza o primeiro vídeo:
Em plena invasão dos nazistas alemães à União Soviética, iniciada em junho de 1941, e com o inimigo às portas de Moscou e Leningrado (atual São Petersburgo), Ióssif Stálin, Secretário-Geral do Partido Comunista (bolchevique) da URSS, toma uma decisão ousada: realizar a parada de comemoração do aniversário da revolução socialista nas mais duras condições, sob cerco e sob forte tensão. A justificativa é a de que o mesmo foi feito com sucesso em 1918, durante a Guerra Civil Russa, comemorando-se o primeiro aniversário da Revolução de Outubro, enquanto as tropas brancas e seus auxiliares estrangeiros cercavam militarmente o governo bolchevique.
Em plena invasão dos nazistas alemães à União Soviética, iniciada em junho de 1941, e com o inimigo às portas de Moscou e Leningrado (atual São Petersburgo), Ióssif Stálin, Secretário-Geral do Partido Comunista (bolchevique) da URSS, toma uma decisão ousada: realizar a parada de comemoração do aniversário da revolução socialista nas mais duras condições, sob cerco e sob forte tensão. A justificativa é a de que o mesmo foi feito com sucesso em 1918, durante a Guerra Civil Russa, comemorando-se o primeiro aniversário da Revolução de Outubro, enquanto as tropas brancas e seus auxiliares estrangeiros cercavam militarmente o governo bolchevique.
Trata-se do excerto de um informe de Iosif Stalin, líder soviético, à sessão solene do Soviete de Moscou de Deputados Trabalhadores com organizações partidárias e sociais da cidade de Moscou, ocorrida a 6 de novembro de 1944, informe cujo texto foi publicado na íntegra na edição do jornal Pravda do dia seguinte. [2]
Nova tradução e primeira legendagem do discurso do líder soviético Iosif Stalin celebrando a capitulação total do exército alemão e a vitória da URSS e seus aliados na Segunda Guerra Mundial, a 9 de maio de 1945. Foi transmitido em russo pelo rádio a toda a população, e constitui um documento histórico da maior importância. [2]
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[1] Introdução retirada ao texto de Ângelo Alves no Avante!, aqui.
[2] Vídeos e textos retirados do excelente canal de Youtube Pan-Eslavo Brasil.
terça-feira, 14 de abril de 2015
Episódios do Absurdo #7
Isto está tudo ligado. Conheço um homem que se reformou. E o que fazer com o tempo? Dedicou-se a desenvolver um hobby para vencer tédio. Então ele decidiu desenvolver uma animosidade. Boa ideia! Decidido como é comprou o Manual do Condomínio. Arranjou um épico, justiceiro e legalista motivo por causa das dispensas do prédio. As dispensas fora-da-lei beneficiam todos, excepto a lei. Foi assim que o condomínio tornou-se a sua vida. Coloriu com um estudo profundo e post-its o Manual do Condomínio. Quatrocentos de cinquenta e duas páginas a fundo. Adquiriu valências. Diz que sabe mais que um advogado. E sabe. Vai para tribunal. Sozinho, contra restantes condóminos. Coragem. Uma vida cheia de sentido. Um sentido! Isto está tudo ligado.
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Filme: Sunday in Brazzaville
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Filme: Sunday in Brazzaville
sábado, 11 de abril de 2015
Jazz e Local de Culto
| Universal Indians & Joe McPhee, 11 de Abril de 2015 |
Fui sozinho. Subi ao sótão da Smup e sentei-me com antecedência nas cadeiras da frente, fiquei a observar os músicos. Sem nada ter dito ou feito, apenas sentado à espera do público, Joe McPhee tinha claramente uma áurea que só as grandes figuras míticas do Jazz e Blues conseguem ter. Céus!, como pode estar um ser raro destes num sótão na Parede?! Procurei mandar uma mensagem ao André - que não pôde aparecer por causa do canalizador - a dizer que Joe McPhee estava ali sentado a existir, como se pudesse haver seres mitológicos a existir no concreto, mas perdi o contacto do rapaz. Há momentos que se têm de alguma forma partilhar com alguém. Um pôr-do-sol não é tão belo quando se o vê sozinho, dizia-me uma amiga.
Foram chamar o público aos andares abaixo. Fez-se a apresentação da banda como sempre ali se faz. Vai começar o concerto! Simplesmente, quase sem aviso, a banda explodiu em som. Violento, como nunca em outro estilo de música ouvi. Violento, contudo, não é a palavra adequada. Como gostaria eu de saber qual a palavra que descrevesse com justiça aquilo! Soava a Liberdade. Desliguei-me pairando naquela polifonia multilingue e frenética poliritmia emocional que destruía a cada verso sónico as convenções gramaticais da música de plástico, projectado num voo saxofónico, irrepetível, transformador. Afinal, há coisas que só se deve experienciar sozinho.
Sabia, antemão, que muito provavelmente iria assistir a um dos melhores concertos de Jazz que já vi, mas jamais que iria ser tão bom. Fiquei vários minutos a observar a banda a arrumar os seus instrumentos e finalmente desci ao andar abaixo para voltar a mim. Abandonara o sótão dos seres mitológicos. Sentei-me a tentar ler o meu livro enquanto voltava ao mundo concreto. Li (ou tentei ler) sossegado entre a confusão do bar até ter condições de voltar a conduzir e voltar para casa. Definitivamente, há uma relação dialéctica entre o abstracto e o concreto, e o Jazz é um dos intermediários.
Por muito contraditório que pareça, há pôres-do-sol que se devem assistir sozinho.
terça-feira, 17 de março de 2015
Inconformismo - The Great Gig in the Sky
Usamos padrões familiares para evitar cair em desgraça no nosso meio social. As experiências laboratoriais sobre a conformidade de Asch são demonstrativas disso. Sinto cada vez mais falta desse risco de se cair no ridículo na arte em geral. Mas culpa minha, também, por demasiadas vezes apontar o dedo às frustradas tentativas de terceiros em tentarem quebrar os padrões familiares, em particular na música.
Em 1973, durante as gravações de Dark Side of the Moon dos Pink Floyd, Clare Torry foi convidada para vocalizar por cima dos acordes de Rick Wright em The Great Gig in the Sky. A banda não sabia muito bem o que fazer com a música. E colocar Clare a cantar foi ideia de Allan Parsons, produtor do álbum. O curioso é que terminada a gravação da vocalização, Clare mostrou-se embaraçada, pedindo desculpa pela actuação. A banda ficara encantada com a solução dada à indefinição e confusão relativamente ao que fazer com a música em questão. O embaraço teve em parte, acredito eu, na falta de referências relativamente àquele tipo de vocalização. Era um conceito que lhe era estranho.
Sem este histórico acto de inconformismo não teríamos possibilidade de apreciar esta maravilhosa e desafiante peça de musical que hoje nos parece tão simples e normal.
Todo o álbum é um acto de inconformismo.
quarta-feira, 4 de março de 2015
Sr. Romeulloy III - Entre o Nada e o Ser
Em breve ver-me-ei a falar de mim, e só para mim, na terceira pessoa. Algo em breve me acontecerá. Só que ainda não o sei.
Estou no banho. Dão-me banho. Não sei se estou deitado na banheira ou se sentado ao chuveiro. Os meus movimentos não têm agilidade, ou terão? Meus olhos não focam, se focam vejo desfocado e nublado. Cataratas no chuveiro? Parece que vejo bem a poucos centímetros do nariz, as faces são o que me interessa aos olhos, progressivamente vou vendo melhor a focos mais distantes, mas apenas faces próximas de afecto. Cataratas de água, cascatas de nuvens quentes, ou olhos cansados? Não me consigo equilibrar. Soubesse ao menos se estou sentado num banco no duche, ou se deitado numa banheira de plástico dentro de outra banheira maior de cerâmica. Não consigo ver, percepcionar, discernir sequer meus movimentos. Puxam-me os cabelos. Será que os puxo a mim próprio? São poucos os cabelos, isso eu sei. Não sei se crescem ou se caem. Pelo menos dois tenho. Nem sei. Não sei se cresço ou se mingo. Não sei se ganho ou perco visão. Não sei se me ergo ou se me estendo. Não sei que idade tenho.
A partir daqui, inexplicavelmente, vejo-me na impossibilidade de falar de mim na primeira pessoa. Algo me aconteceu. Ou algo ficou por me acontecer. Seja como for, neste momento eu não sou nem me tenho. Isso sei.
Levam-me com urgência para as Urgências. Levaram-me com urgência para as Urgências. O pretérito perfeito, apesar de incerto, confunde-se-me com o presente. Urgência! Assisto-me de fora do corpo o meu corpo. Mas tive corpo? Não sei sequer se aquele meu corpo que olho foi ou será meu. Pulseira amarela ao pulso. Não sei se no meu pulso ou se no de alguém que me acompanha. Meu amor?. Expressões de temor em quem me rodeia. A minha expressão é-me enigmática. Nem consigo perceber se estou ali deitado numa maca, ou se estava ali ao colo de um braço alheio com fita amarela. Mãe?. Nove horas de espera! Corredor sem corrente de ar, paredes?, escuro. Estava frio. Está muito frio. Cada vez mais frio. Alguém se afasta de mim. Não sei se de braços abertos a fecharem-se ou se de pernas abertas a tapar-se. Dois corpos frios se aproximam daquilo que serei eu. Não sei se caminham ou se levitam. Nem se têm corpo. Aproximam-se do que fui eu. Tiram a pulseira amarela e deixam uma etiqueta. Penduram-na no dedão do pé. A etiqueta Nº 251175.
* * *
O Sr. Romeulloy está impossibilitado de se ser. Não pode, portanto, usar as palavras. Deixou de se falar. Deixou de se ouvir. Todas estas prosas que lemos de Romeulloy não eram mais do que os seus pensamentos ou conversas solitárias. Um quadro semântico pintado em tela de vácuo. Efémero, excepto entre o início e o fim.
Link para Sr. Romeulloy
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
Reformista Aquático
Um dia ainda irei conhecer alguém que teime que a água pode passar de líquido a gasoso sem um processo violento de transformação. E sem dar "saltos". Dirá essa pessoa, cheia de boas intenções, que a água deve passar de um estado para o outro sem sobressaltos, só possíveis - na cabeça dessa pessoa - quando pequenas mudanças (pragmáticas, claro) ocorrem na água permitindo a transformação desta num gás sem quase se dar por isso. Seria uma passagem suave, calma, sem levantar ondas, borbulhas e fervuras. No fundo, como se a fervura não fervesse. Como se as borbulhas não borbulhassem. Como se ninguém desse pela diferença entre se beber um copo de água líquida e um copo de vapor de água. Como se essa passagem de estado não fosse uma mudança radical. Mas essa pessoa dir-me-á que me devo deixar de radicalismos, preconceitos científicos, fantasias juvenis e passar a ser realista, entre outras considerações dignas de sublimação. Ela ignorará, igualmente, que a água quando sólida, gelada, entre revoluções francesas e outras mais, se fez líquida. Em boa verdade, já conheço muita gente assim, que, sem o saberem, acham que é possível a água passar de estado líquido para gasoso sem um processo revolucionário. São os reformistas aquáticos.
terça-feira, 25 de novembro de 2014
A Viuva Enjeitada
Isto
é uma história verídica. A impotência - cruzes canhoto! - era o maior
drama do sr. António, que sobrevivia com sua mulher. A reforma não era boa, chegava a faltar-lhe para os medicamentos, mas o pior era
ter uma mulher marreca.
Um dia o drama do sr. António deu uma reviravolta. Tudo aconteceu quando sua mulher perdeu, enquanto limpava o chão da antiga fábrica, o contacto com o chão. Diz quem viu, que ela no ar já ia desmontada e que se terá socorrido de uma Avé Maria que não finalizou. O chão interrompeu-lhe as preces. Esmigalhou o tornozelo. Partiu uma perna em duas. E ao tentar levantar-se abriu o pulso. Mas a reviravolta surgiu aos olhos espantados da vizinhança meses depois: A queda enjeitou a mulher do sr. António!
A nova configuração da mulher levantou o ânimo ao sr. António e a impotência curou-se.
Isto é uma história verídica, a história de duas pessoas que encontraram felicidade após uma escorregadela. Enfim, apenas é a crónica de um típico caso de vida, entre as poucas que têm um final feliz. Resta contar que o sr. António e sua mulher não viveram a felicidade por muito mais tempo. Era a impotência do Sr. António que lhe mantinha o sistema cardiovascular abaixo dos limites. Certo dia, num momento alto de suas sobrevivências e de unção dos corpos, uma coronária não resistiu. A felicidade deu cabo dele.
Um dia o drama do sr. António deu uma reviravolta. Tudo aconteceu quando sua mulher perdeu, enquanto limpava o chão da antiga fábrica, o contacto com o chão. Diz quem viu, que ela no ar já ia desmontada e que se terá socorrido de uma Avé Maria que não finalizou. O chão interrompeu-lhe as preces. Esmigalhou o tornozelo. Partiu uma perna em duas. E ao tentar levantar-se abriu o pulso. Mas a reviravolta surgiu aos olhos espantados da vizinhança meses depois: A queda enjeitou a mulher do sr. António!
A nova configuração da mulher levantou o ânimo ao sr. António e a impotência curou-se.
Isto é uma história verídica, a história de duas pessoas que encontraram felicidade após uma escorregadela. Enfim, apenas é a crónica de um típico caso de vida, entre as poucas que têm um final feliz. Resta contar que o sr. António e sua mulher não viveram a felicidade por muito mais tempo. Era a impotência do Sr. António que lhe mantinha o sistema cardiovascular abaixo dos limites. Certo dia, num momento alto de suas sobrevivências e de unção dos corpos, uma coronária não resistiu. A felicidade deu cabo dele.
domingo, 9 de novembro de 2014
Episódios do Absurdo #6
Absolutamente incrível, admirável, estúpido, ... , quase tudo o que é relativo à espécie humana concentrado num vídeo.
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
António - Herói Pós-Moderno
Gostamos de heróis. Personificações dos nossos desejos capazes de lutar por concretizá-los. Embora, nunca saibamos o que exactamente desejamos lá no fundo! António, nome fictício, é um desses heróis.
António, herói desta história, foi com um casal amigo passear e, depois,
já mais calmo, presenteou a família com esticar do pernil. Quem ler a notícia que poderá concluir? Esta
história é um thriller da psicanálise do acaso. Esta história é mais um caso de pseudo-análise de classe, mas poucos se importam por a média não definir as relações sociais da
propriedade moderna ou outra qualquer. Que interessa isso quando esta é uma daquelas histórias em que, novamente, a realidade é tão real como a
ficção. António, à falta de recursos imediatos para fazer cinema (ou jogar
vídeo-jogos), traz a ficção à realidade - num vice-versa que funde ambas. Imagem e semelhança. António, herói desta história,
artista plástico da vida, e plástico artista da ficção, inaugura sem querer nem saber o neo-ficcismo do pós-pós-modernismo - algo que apenas no futuro ficaremos a saber e já depois de estarmos todos mortos. António ou Zé, sobrenome Ninguém ou Todos. Nós, enquanto continuarmos a escrever coisas, as coisas escrever-se-ão por elas, transformando Antónios em jornais e Jornais em antónios.
Note-se bem. Esta notícia é antes um ensaio sociológico num enredo cinematográfico que ao ser notícia se transfigurou num acontecimento real. E vice-versa. Este acontecimento real transfigurou-se em notícia num enredo cinematográfico que é antes um ensaio sociológico da notícia.
Por fim, vamos mais ao fundo da questão e/ou sobrevoemos de vez sobre ela. António, herói desta história, esfaqueia o desejo concretizado de família e num momento social perfeito. Nenhum desejo, elevado e humanizado em fantasia, é concretizável por inteiro sem matar o sonhador. Não haverá maior pesadelo que a própria fantasia em plena realização. O abismo da plena realização para o vazio levou o herói desta história, António, a matar os seus adereços de vida mais queridos, mulher e filha, à facada! Qualquer pesadelo é melhor que o da plena realização.
António, herói desta história, arquétipo pós-moderno das massas, Messias pós-pós-moderno, imagem de plástico da nossa semelhança, salvou-se da plena concretização com a fusão da realidade com a ficção. Mas condenou-nos a todos. Os textos noticiosos, fictícios ou não, tornaram-se o enredo da vida, sendo o inverso válido mas redundante escrevê-lo. O fim está próximo. Basta alguém escrevê-lo. Fim.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Crónica de uma Bomba de Gasolina à Noite
E se a mentira que o homem constrói não for a negação das condições do plano da existência mas antes a refracção da própria realidade, dado que a mentira transporta em si os elementos que definem a verdade, como um olhar que capta uma silhueta e especula sobre o objecto, reduzido ao intervalo das possibilidades reais, e é nestas considerações que a madrugada nos leva à bomba de gasolina, daquelas estações que permanecem abertas quando a noite tudo silenciou, e neste cenário o foco centra-se numa mulher jovem de etnia africana, gorda, pouco atraente, olhos cavados, uma cara rebentada de borbulhas, e faz-nos lembrar um ferrero rocher sem que a consciência nos impeça de tecer opiniões deselegantes, pois nesta crueza descritiva há uma validação preambular, mas voltando ao âmago narrativo, temos uma pessoa feia e gorda acabada de sair do trabalho, visto que ainda traz consigo um uniforme da empresa de limpezas, e imaginamos que terá vindo à loja a caminho de casa, uma casa que deve resumir-se a uma sala pequena com kitchenette, uma casa de banho e um quarto do tamanho de uma dispensa, e com isto se define uma casa porque assume uma exposição básica dos elementos que definem uma casa, um espaço que delimita as fronteiras do interior para o exterior, em que se encerra, mesmo quando arrendado, a ideia de propriedade, porém esta personagem não deve desenvolver a consciência para discutir estas, e outras, significações complexas, resumindo a sua relação com o espaço através de construções emocionais relativas à posse e ao status quo necessário para a sua integração social, visto que os seus vínculos sociais dependem da afirmação das condições que constroem as suas expectativas idiossincrásicas e culturais, o que por outras palavras significa que se não possuir um espaço que se possa definir como casa, pode sentir-se rejeitada por um meio envolvente que força a ideia de posse como requisito social básico, e na continuação desta ideia, vêmo-la a comprar duas revistas de moda, vários pacotes de bolachas e chocolate e um saco de pipocas, e não nos é difícil de adivinhar que quando chegar a «casa», e assim que ligar o televisor, não para seguir a programação mas simplesmente para se sentir acompanhada, abrirá as revistas onde constatará que há mulheres que são terrivelmente atraentes, afogadas em luxo e em estatuto de elite, que nada fizeram da vida com mérito próprio, à força do trabalho e do intelecto, mas tão só nasceram com genes que as favorecem nesta geração da humanidade, e esta nossa personagem afirmará nos interstícios da consciência comiserativa que a vida é injusta, e mais uma vez adivinhamos que entre lágrimas recalcará o vazio com chocolates e bolachas e pipocas, com um intuito suicida de sabotar o seu futuro, caminhando num trilho oposto ao projectado, e tudo porque a frustração e a angústia levam-na a odiar-se diariamente, seja no trabalho ou seja em «casa», recusando procurar outras ferramentas para concretizar os seus desejos e necessidades, não só por estar alienada, mas porque precisa de alimentar a mentira, e é esse o ponto nevrálgico deste discurso, dado que os sujeitos constroem mentiras não para negar a miserabilidade da vida, mas antes para se impedirem de constatar essa mesma miserabilidade e transformá-la em algo mutável, pois é mentindo-se que estorvam a mudança e a concretização das projecções pessoais, acabando por realçar e sublinhar a realidade da sua situação, e ao analisar todos os elementos que definem a mentira encontramos a silhueta da verdade, e quando a nossa personagem acordar no dia seguinte, ainda no sofá, com a televisão acesa, duas revistas que provam a insignificância da sua existência, embalagens de plástico vazios, um rosto com rímel borrado e duas novas borbulhas, bastam-lhe um saco do lixo e uma cara lavada para recomeçar um ciclo de autocomiseração que só terminará com um enfarte do miocárdio, c'est fini, kaputt, arrivederci, e tudo isto seria irrelevante se fosse um caso excepcional, mas não o é, pois a mentira continua a ser interpretada como a negação da verdade e não como a refracção da realidade, impossibilitando a tradução das angústias humanas em qualquer coisa transformável.
sábado, 11 de outubro de 2014
O Silêncio
Falta silêncio. Esse bem precioso é constantemente evitado com o encher de chouriços sonoros. A música é quase omnipresente. Entra-se no carro, liga-se o rádio; entra-se numa loja, mais música; sobe-se num elevador, mais notas musicais; vamos mandar uma cagada à WC e também nos bufam com música! Música de merda, normalmente. Mas também a boa música vira poluição na overdose diária a que estamos submetidos.
O maestro Vitorino de Almeida escreveu um pequeno e fantástico livro chamado O que é Música? em que reflecte sobre este assunto, mas noutro sentido ao que acima escrevi. Ele exemplificava que a música ou outro qualquer ruído era admitido conforme o contexto. A cacofonia de barulhos e músicas chocando umas com as outras numa feira ou parque de diversões é humanamente admitida, enquanto um simples tossir num concerto de música erudita pode irritar a plateia.
Que nos leva a evitar o silêncio nos momentos em que o contexto o exigiria? Será a voz interior que de dentro de nós submerge? Há quem ligue uma TV só para companhia, embora ignore a programação. Pelos vistos, mais vale estar mal acompanhado!
Há meses que deixei de ouvir música no carro. Prefiro ouvir o motor ou os estranhos efeitos que o som faz vindos da janela com o movimento. O interesse por este aparente silêncio intensificou-se com os constantes pedidos de minha sobrinha para ligar o rádio na RFM ou na Comercial. É verdadeira poluição sonora. Um nojo de música vomitada numa curta e incessante playlist que nos faz definhar o cérebro e a paciência. Conteúdo e forma musical de plástico. Plástico, plástico e mais plástico, com excepções musicais que se afogam na merda da lista de canções que essas rádio debitam. Poucas coisas me tornam tão óbvio o valor do silêncio, neste caso, da ausência de música.
A rádio Comercial, a RFM, e quase todas as outras, são um atentado à própria música como arte. É musica velha nova. É sempre música velha nova. Não acrescentam nada. As concessões para uso das frequências radiofónicas em que emitem deviam ser canceladas. Estas rádios não dão um serviço positivo à comunidade. Puro desperdício de ondas, quando há um enorme e desafiante mundo de música experimental e música antiga para explorar. Há imenso para se discutir e dar a conhecer sobre música e sobre a sua interligação com a sociedade, mas o que nos dão são receitas de plástico para os ouvidos.
Há dias li um artigo sobre o sonoplasta Vasco Pimentel. Foi inspirador. Fantástica a perspectiva e atitude dele perante o som. Abriu-me os ouvidos e a mente para tudo isto que vos falo. Estes últimos tempos têm sido reveladores relativamente à qualidade e riqueza daquilo que há para ouvir em nosso redor.
Como músico, os pequenos e grandes sons, tanto os amestrados como os selvagens, têm ganho novo corpo e cores para mim. Nada como o silêncio para intensificar o valor do som e música.
Como músico, os pequenos e grandes sons, tanto os amestrados como os selvagens, têm ganho novo corpo e cores para mim. Nada como o silêncio para intensificar o valor do som e música.
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
Praxes em Fila Indiana
Ela defendia a praxe. Argumentava. Disse-lhe que me fazia confusão ver pessoas em fila indiana, juntinhas, caminhando passo a passo para o mesmo ponto. Disse-lhe que a ordem indiana pode ser adequada e positiva quando se alinham até ao talho, para buscar umas febras e evitar confusões. Mas disse-lhe, também, que ver pessoas em fila indiana para serem talhadas me fazia mingar as vergonhas. Lembrei-lhe que há uns anos a malta fez indianas filas para entrar nuns comboios. Há um lado conformista e acrítico nas filas de miúdos com as cuecas por cima das calças que me lembra Auschwitz, e disse-lhe. Ela riu, fingiu não me levar a sério, não quis levar-me a sério (aqui foi sensata), mas ouviu-me e perdeu-se no raciocínio dela própria. Engraçou comigo! Falou que eu era um brincalhão (mas a merda é que eu falava a sério). Dava a entender que queria ser praxada e eu não estava para ali virado. Talvez o problema fosse somente o facto de preferir as morenas, mas com aquela fila de argumentos indianamente encarreirados já toda ela me era no meu imaginário um holocausto. Preparei a fuga. A sua gesticulação convidava-me para fazer fila indiana, com ela. Confesso, hesitei, tive dúvidas se deveria enfileirar-me nela, mas a História ensina muita coisa e tomei uma decisão. Fiz a escolha certa. Fiz o que devia ter feito. E agora estou arrependido de não lhe ter segurado a mão e apanhado o comboio. Afinal, ela defendia a praxe.
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
Centelhas que ainda Faíscam #3
Frenzy - The Ex
Let me tell you about Karl Marx
a visionary fish in a pool of sharks
he was funny guy
I don't have to tell you why
his one-liners were the best
like the one in the past
about das Casablanca manifest
For that night, a women she came
and she warn away, to warn some others
to warn her brothers
but Karl just said; "hey Fuck off
I knew you guys, up to your eyes
I know that you Fuck your mothers"
He was really quite a laugh
I just couldn't get enough
I saw all his movies, one by one
they were thought-provoking
and I'm not joking
but this son of a gun
had only just begun
to have some fun
And don't forget about this book he wrote
with plenty of "workers, you'll get fired" scenes
hello you must be going
if you know what that means
people used to laugh their heads off loud
just like in the gay old times
with them good old guillotines
And then there's Groucho, a serious bloke
who never told a single joke
he had a beard, that might seem weird
but he sure wasn't shy as he cast the die
for he told the bosses; "you bet your life"
Let's put things in hysterical perspective
to make my remarks a bit more effective
for those were the days
but those days took a hike
when the West world insist
on a sit-down strike
for the stand-up communist ...
not columnist, economist but communist
not chameleon, comedian but communist
Well, that's not arty-farty,
that's when Lenin met McCarthy
and this, as far as I can see,
was the beginning of a beautiful frenzy
The beginning of a beautiful frenzy
Dia 4 de Outubro, às 21h30, no Pavilhão do Grupo Desportivo Ferroviário do Barreiro: recuperar The Ex nos vagões da memória.
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
"Os Zebrús estão a um nível superior"
Se alguém tiver que explicar o que é um glutão a quem nunca viu um glutão, escusado tentar fazê-lo pela negativa. Dizer que um glutão não é um cão, nem um hipopótamo, nem tem quatro rodas ou asas e nem é o padeiro que fez a dona Zenilda pecar, é, claro está, o mesmo que nada dizer sobre o que é um glutão.
A isto chama-se definir uma coisa pela negativa. Um sofisma clássico.
As coisas só podem ser definidas pela positiva. Nada se prova pela negativa. Quando se tem uma tese fundamentada pela positiva, ela pode ser refutada... surgindo uma outra tese. Além disso, há algo importante a ter-se em atenção: quando não é possível provar-se a inexistência de uma coisa, isso não significa que essa coisa exista.
Vejamos o caso do zebrú. O zebrú não é um glutão, não é um cão, não tem quatro patas nem motor. Sei, por acaso, que você não sabe o que é um zebrú nem nunca viu nenhum, mas desafio-o a provar na caixa de comentários abaixo que os zebrús não existem. Se não conseguir prová-lo os zebrús passam a existir?
Deus nos salve de tais lógicas!
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Crónica de uma Lembrança
Quando as luzes se apagam são vultos que vagueiam nas penumbras das ideias, sombras que se afastam e que se aproximam, em silêncio, nas madrugadas pesadas e longas, madrugadas insones, dado que nos assalta uma sede, uma garganta de pavores nocturnos, uma violência que se remexe nos nossos intestinos e já só nos resta ir ao frigorífico, no resgate do vinho branco, a profilaxia que os nossos instintos nos recomendam, e quando puxamos pela porta do frigorífico há aquela resistência de vácuo que nos dificulta as soluções mais fáceis, soluções que também são as mais frágeis porque nos atiram para um limbo, uma corda bamba de estados emocionais, uma dúvida que nos oprime a consciência, no entanto a porta cede e dá lugar à luz que nos estonteia os nervos, piscámos os olhos, com uma mão protegemo-nos da cegueira e com a outra buscamos a garrafa, recordamo-nos de uma infância, de uma feira, que hoje detestamos, aquele espectáculo de desordem e confusão, e gentes que se comunicam em decibéis difíceis de suportar, e é tão fácil os nossos olhos se perderem nas dezenas de barracas, e nas centenas de inutilidades que se vendem, e toda aquela sensação de sorrisos falsos e intrigas e desonestidades, toda aquela sensação de vivências marginais, tudo tão circense, da mesma forma como detestamos o circo, já não suportamos aquele modo de vida paralelo porque sabe-nos a logro e a fantasias do degredo, e vemos o nosso pai a regatear fruta num diálogo de compadres, num jeito de amizade forçada que tilinta uns cobres que se trocam por um saco de maçãs ranheta, uns sorrisos, uma gargalhada que se confunde em gargarejar, um escarro para o canto, obrigado e até amanhã, e nisto uma maçã rola da bancada e cai ao chão, e por lá se fica entre sapatos que se movem, e de pontapé para ali e outro para acolá, a maçã experimenta a turbulência do quotidiano humano até repousar num ângulo escondido entre barracas, esquecida e perdida, nem um rato que se aproximou para farejá-la fixou interesse na maçã, uma vez que foi expulsa das dinâmicas existenciais, relegada à condição do desprezo e da repulsa, uma maçã solitária em estado de decomposição acelerada, visto que foi retirada da qualidade que subjaz a matriz de existência das coisas existentes, porque fora do seu contexto cessam as razões que a mantinham no plano da sua entidade como maçã, já só lhe resta o caminho do perecimento, contaminada por um bolor de tons azuis e verdes e um arco-íris de putrilagem, nem as sementes escapam, nem a possibilidade de renascer foi-lhe dada, completamente condenada a desaparecer neste varrer de desdém que a vida nos oferece, e ao recuperarmos o presente, ainda cegos do frigorífico, desistimos da garrafa de vinho, porque já nos basta a marginalidade da noite, e é a cama que nos impele a refazer as oportunidades do amanhã, pois é o sono que nos reabilita as podridões das narrativas diárias, no entanto somos obrigados a frisar que não somos maçãs, somos homens, e mesmo quando vetados ao esquecimento, projectamo-nos nos sonhos e nas utopias, neste fluxo inesgotável de existência humana, muito para além das nossas sementes e do nosso perecimento.
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